Neste 29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans, o Brasil volta a encarar um dado alarmante: o país segue sendo o que mais mata travestis e transexuais no mundo. Em 2025, foram registrados 80 assassinatos, segundo a 9ª edição do dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), divulgado nesta segunda-feira (29).
Embora o número represente uma redução de 34% em relação a 2024, quando houve 122 crimes, o Brasil mantém há quase duas décadas a liderança desse ranking marcado pela violência, impunidade e apagamento institucional.
As principais vítimas continuam sendo mulheres trans e travestis negras, jovens entre 18 e 35 anos, evidenciando como racismo, desigualdade social e transfobia se cruzam de forma letal. Em 2025, Ceará e Minas Gerais lideraram os registros, com oito casos cada. A maioria das mortes ocorreu no Nordeste (38), seguido pelo Sudeste (17), Centro-Oeste (12), Norte (7) e Sul (6).
Violência estrutural e abandono do Estado
Para Bruna Benevides, presidente da Antra e uma das autoras do dossiê, os números não representam episódios isolados, mas o reflexo de uma estrutura social que expõe pessoas trans à violência desde a infância.
“Não são mortes isoladas, revelam uma população exposta à violência extrema desde muito cedo, atravessada por exclusão social, racismo, abandono institucional e sofrimento psicológico contínuo”, afirma.
A própria necessidade de monitoramento feito pela sociedade civil, segundo ela, já revela o apagamento dessas vidas por parte do Estado. Os dados do dossiê são reunidos a partir de denúncias a organizações trans, notícias e registros públicos, sem que exista uma sistematização oficial por parte do poder público.
Apesar da queda nos assassinatos consumados, o relatório chama atenção para o aumento das tentativas de homicídio, mantendo o grau de violência em níveis alarmantes. Entre 2017 e 2025, o estado de São Paulo liderou os números absolutos, com 155 assassinatos de pessoas trans e travestis.
Onde entram as masculinidades positivas
Especialistas e ativistas apontam que enfrentar esse cenário exige mais do que respostas penais: passa pela transformação das relações de gênero, especialmente entre homens cisgêneros. É nesse contexto que o debate sobre masculinidades positivas ganha centralidade.
Masculinidades positivas propõem romper com padrões de masculinidade baseados na violência, no controle e na negação da diversidade, incentivando atitudes de responsabilização, cuidado e enfrentamento ativo da transfobia. Isso significa que homens não devem apenas “não agredir”, mas intervir diante de discursos de ódio, questionar piadas e violências naturalizadas e assumir uma postura pública de defesa da dignidade das pessoas trans e travestis.
Pesquisas e experiências comunitárias indicam que muitos crimes contra essa população têm relação direta com normas rígidas de gênero, que associam masculinidade à dominação e ao apagamento do que foge do padrão cis-heteronormativo. Ao desconstruir essas normas, masculinidades positivas atuam como fator de prevenção da violência, especialmente em ambientes como escolas, espaços religiosos, famílias e locais de trabalho.
Falta de políticas públicas e responsabilização social
O dossiê da Antra também denuncia a subnotificação, a desconfiança nas instituições de segurança e justiça, a retração da cobertura midiática e a ausência de políticas públicas específicas para pessoas trans como fatores que agravam o cenário de violência.
Entre as recomendações estão a inclusão da população trans nas políticas já existentes e a criação de ações específicas de enfrentamento à transfobia, reconhecida como crime no Brasil desde 2019, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
“É preciso reconhecer que as políticas de proteção às mulheres precisam estar acessíveis às mulheres trans, por exemplo”, reforça Bruna Benevides. “Há muita produção, inclusive de dados, falta ação por parte de tomadores de decisão.”
A cerimônia de entrega oficial do dossiê ao governo federal ocorreu no auditório do Ministério dos Direitos Humanos, em Brasília.
Nota da ComCausa
A ComCausa, iniciativa de promoção dos direitos humanos e da defesa da vida, também se manifestou nesta data:
“É inaceitável que o Brasil siga liderando as mortes de pessoas trans ano após ano. A redução nos números não apaga a responsabilidade do Estado. É urgente que políticas públicas inclusivas e permanentes sejam implementadas para garantir dignidade e proteção à população trans.”
A organização destaca ainda que o Dia da Visibilidade Trans deve ir além do simbolismo e se tornar um chamado à ação coletiva, envolvendo poder público, sociedade civil e, especialmente, homens comprometidos com a construção de relações livres de violência.
Violência contra a população LGBTQIAP+
Os dados da Antra são reforçados por levantamentos do Grupo Gay da Bahia (GGB). Em 2025, o Brasil registrou 257 mortes violentas de pessoas LGBTQIAP+, sendo 204 homicídios, 20 suicídios e 17 latrocínios.
Apesar de uma redução de 11,7% em relação a 2024, o país segue liderando globalmente esses números. Para efeito de comparação, o México registrou 40 mortes e os Estados Unidos, 10. Segundo o GGB, uma pessoa LGBTQIAP+ morre de forma violenta a cada 34 horas no Brasil.
Diante desse cenário, o fortalecimento de masculinidades positivas surge como uma estratégia essencial para romper ciclos de violência, enfrentar a transfobia cotidiana e contribuir para uma sociedade em que a vida de pessoas trans e travestis seja reconhecida, protegida e valorizada.
ComCausa
a ComCausa – Defesa da Vida, com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU), estrutura o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida como um caminho comunitário: rodas de conversa orientadas, pactos de convivência, ferramentas práticas de maturidade emocional e mobilização pública para transformar autocontrole em proteção real, dentro e fora de casa.
Este artigo integra o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, estruturado pela ComCausa – Defesa da Vida com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU). A proposta enfrenta padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas: autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado.
Parceria UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU):

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