Em um país atravessado por desigualdades históricas, preconceitos estruturais e violências que, muitas vezes, se repetem como marcas em nossas trajetórias, a Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa surge, desde 2008, como um gesto carregado de significados. Não se trata apenas de reunir pessoas em uma avenida famosa do Rio de Janeiro. Trata-se de uma resposta coletiva e simbólica diante de um contexto que insiste em negar o direito elementar de viver plenamente a própria fé.

A Caminhada é, antes de tudo, um grito de vida. É o ato público que recorda ao Brasil que cada templo queimado, cada guia arrancada do pescoço de uma criança, cada ameaça dirigida a uma mãe ou pai de santo, não é apenas uma agressão isolada: é uma tentativa de retirar do outro o direito de existir. Por isso, defender a liberdade religiosa é inseparável da defesa da vida.

A vida que insiste em resistir

Desde a chegada dos primeiros povos africanos escravizados, que mantiveram suas tradições espirituais mesmo sob o chicote, até os povos indígenas que foram perseguidos por suas cosmologias próprias, a liberdade religiosa no Brasil é marcada pela resistência. Não há como falar de pluralidade espiritual sem reconhecer que ela se construiu no enfrentamento de séculos de violência e tentativa de apagamento. E essa história não é passado.

Ela se reatualiza no presente, quando o Disque 100 registra mais de 2,4 mil denúncias de intolerância religiosa apenas em 2024, um crescimento de quase 70% em relação ao ano anterior. No estado do Rio de Janeiro, epicentro dessa realidade, quase 40% dos casos do país se concentram — com a Baixada Fluminense e as periferias da capital figurando como os territórios mais atingidos. Ali, os números se transformam em rostos: terreiros queimados em Belford Roxo, sacerdotes ameaçados em Caxias, crianças humilhadas em escolas de Queimados e Nova Iguaçu.

Diante desse cenário, afirmar a liberdade de fé não é uma questão apenas espiritual ou cultural. É uma questão vital. Significa garantir que pessoas possam existir sem medo. Significa sustentar o direito de viver sem que sua crença seja motivo de exclusão, violência ou morte.

Caminhar juntos como resposta

O gesto de caminhar juntos, na Avenida Atlântica, torna-se um antídoto contra a tentativa de dividir e silenciar. Quando mais de 100 mil pessoas se reúnem em Copacabana, não estão apenas marchando: estão dizendo ao país que a vida floresce na coletividade, e que só é possível resistir ao ódio fortalecendo laços de solidariedade.

Ali, lado a lado, estão tradições distintas: candomblecistas, umbandistas, evangélicos, católicos, judeus, muçulmanos, budistas, espíritas, povos indígenas, wiccanos, ciganos e tantas outras expressões de fé. Cada um com seus símbolos, cânticos e rituais. Mas todos, sem exceção, unidos por uma mensagem maior: ninguém deve caminhar sozinho quando se trata de defender a vida.

A intolerância religiosa busca isolar, fragmentar, expulsar. A Caminhada responde com aproximação, encontro e convivência. Ela transforma o espaço público em um quilombo espiritual contemporâneo, onde a diversidade não é apenas tolerada, mas celebrada.

Defesa da vida como princípio ético e político

ComCausa Defesa da Vida entende que não há democracia sólida sem liberdade religiosa, e não há liberdade religiosa sem defesa da vida. Esse princípio deve orientar não apenas discursos, mas práticas concretas de Estado e sociedade: políticas de proteção aos terreiros, protocolos escolares contra o bullying religioso, formação de profissionais de segurança e de saúde, campanhas públicas de valorização da diversidade espiritual.

Mas a Caminhada vai além da cobrança política. Ela é também um ato pedagógico. Ensina, de maneira simples e potente, que a vida se defende coletivamente. Cada passo é uma lição: pais que levam filhos para conhecer tradições diversas; jovens que marcham de mãos dadas com idosos; artistas que cantam sobre os orixás, sobre Jesus, sobre Alá, sobre Jeová, sobre Buda, sobre as forças da natureza. Ali, em cada gesto de convivência, está a prova viva de que defender a vida é aprender a conviver com o outro.

O futuro é coletivo

O Brasil precisa urgentemente compreender que a defesa da vida não pode ser delegada a poucos, nem restrita a uma única crença. Ela só será plena quando cada cidadão se sentir parte de uma comunidade maior, em que diferenças não se transformam em muros, mas em pontes.

A Caminhada em Copacabana é a materialização desse futuro desejado. Ela prova, a cada ano, que é possível ocupar o mesmo espaço sem que a diversidade seja motivo de conflito. Ao contrário: quando caminhamos juntos, mostramos que a democracia é forte, que a vida é inviolável e que a espiritualidade é plural.

Serviço
Evento: 18ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa
Data: Domingo, 21 de setembro de 2025
Horário: 10h às 17h
Concentração: Posto 5 (Avenida Atlântica, em frente aos números 3.628 e 3.604, esquina com a Rua Sá Ferreira)
Saída: 13h
Encerramento: Praça do Lido, Posto 2
Estrutura: Trios elétricos, tenda, banheiros químicos, aguadeiros, ambulâncias, carrinhos elétricos e posto de verificação de pressão arterial

Imagem de capa ilustrativa

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