Movimentos de familiares e coletivos mantêm viva a memória das vítimas e pressionam por justiça
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 reconhece que a memória coletiva não é um mero ato de recordação, mas uma estratégia fundamental no enfrentamento ao desaparecimento de pessoas. O documento afirma que, diante de investigações lentas, fragmentadas ou que jamais chegam a desfechos concretos, manter casos ativos no debate público eleva significativamente as chances de avanço processual, reduz o risco de arquivamento e impede que vítimas sejam absorvidas pelo anonimato estatístico.
Segundo o relatório, a atuação organizada de familiares e coletivos é um instrumento político e prático para pressionar instituições a cumprirem seu papel. Sem mobilização social, boa parte dos desaparecimentos se perde em “arquivos mortos”, inviabilizando a busca por verdade e justiça. Essa compreensão está no cerne da máxima defendida pelo Acolher: Desaparecidos, da ComCausa – Defesa da Vida: “Lembrar é resistir”. Para esses movimentos, lembrar é manter viva a voz de quem não pode mais falar, garantindo que cada nome continue ecoando até que respostas sejam dadas e mudanças estruturais impeçam novas ausências.
Uma luta que atravessa décadas
No Brasil, o desaparecimento raramente se encerra com o registro de ocorrência. Ele inaugura, quase sempre, uma luta que se arrasta por meses, anos ou décadas, conduzida principalmente por mulheres — mães, avós e irmãs — que se tornam ativistas por necessidade.
O país testemunhou, nos últimos 30 anos, o surgimento de movimentos que se tornaram referências nacionais e internacionais na defesa da memória e na pressão por justiça. As Mães da Sé, criadas em São Paulo nos anos 1990, mobilizaram a opinião pública em torno do desaparecimento de crianças e adolescentes, contribuindo para a criação de políticas e cadastros pioneiros. As Mães de Maio, surgidas em 2006 após os Crimes de Maio em São Paulo, transformaram a dor de perder filhos assassinados ou desaparecidos em denúncia organizada contra a violência de Estado.
A trajetória dessas mães inspirou outras iniciativas pelo país: Mães de Acari, no Rio de Janeiro, que desde 1990 lutam pela verdade sobre o desaparecimento de 11 jovens na Chacina de Acari; Mães da Maré e Mães de Manguinhos, que enfrentam a violência armada e as operações policiais letais; e redes como Mães em Luta e Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado, que conectam histórias, articulam campanhas e fortalecem a pauta de direitos humanos.
A geografia da resistência
Essa mobilização se manifesta de forma capilarizada e territorialmente diversa. Na Baixada Fluminense, onde a violência armada e a atuação de grupos paramilitares têm relação histórica com desaparecimentos forçados, caminhadas ocupam praças e ruas com faixas, cruzes e fotos. No Rio de Janeiro, atos na Praia de Copacabana transformam o calçadão em memorial a céu aberto. Em São Paulo, as Mães da Sé se reúnem periodicamente na praça que leva o mesmo nome, enquanto no Ceará, no Pará e no Amazonas, atos articulam a luta contra desaparecimentos a pautas indígenas, quilombolas e ambientais.
Essas ações, além de ocupar as ruas, alcançam gabinetes de parlamentares, audiências públicas e comitês estaduais, resultando em avanços como a criação de cadastros estaduais, protocolos de busca imediata e núcleos de atendimento psicossocial.
A cultura como arquivo vivo da memória
A arte tem sido aliada indispensável na luta contra o esquecimento:
- Música: composições como “Mães da Sé” ou canções em memória de vítimas das chacinas transformam histórias individuais em hinos coletivos por justiça.
- Cinema e audiovisual: documentários como Meninos de Acari, filmes sobre o caso Amarildo de Souza e séries sobre a violência na Baixada documentam e eternizam essas lutas.
- Artes visuais: murais e exposições fotográficas itinerantes — como as realizadas no Museu da Maré e no MUHCAB — expõem rostos e nomes em espaços públicos e culturais.
- Teatro e performance: intervenções urbanas que recriam narrativas reais de desaparecimentos convidam o público à reflexão e ao engajamento.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ações culturais ligadas a direitos humanos têm alto potencial de ampliar a percepção social, especialmente entre jovens.
Datas que renovam compromissos
O Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimento Forçado (30 de agosto) e o Dia Nacional da Luta contra o Desaparecimento de Crianças (25 de maio) são pontos altos do calendário, marcados por atos simultâneos em várias capitais. Nessas ocasiões, famílias realizam plantio de árvores, soltura de balões, projeções de fotos em prédios e instalação de cruzes, combinando homenagem e denúncia.
Aniversários de casos emblemáticos — como a Chacina de Acari, os Crimes de Maio ou desaparecimentos emblemáticos recentes como o de Bruno Pereira e Dom Phillips na Amazônia — funcionam como marcos de renovação da luta e lembrança coletiva.
Memória para prevenir e transformar
O Anuário 2025 reafirma que manter casos vivos na esfera pública é uma forma concreta de prevenir a repetição de violências. Lembrar, nesse sentido, não é apenas honrar o passado: é construir um presente de vigilância e um futuro de mudanças estruturais.
A máxima “Lembrar é resistir” resume o entendimento de que, sem memória ativa, a justiça se dilui, a verdade se apaga e as condições para que novos desaparecimentos ocorram permanecem intactas. Ao recusar o esquecimento, mães, familiares e coletivos não apenas preservam histórias, mas também pressionam por reformas, expõem falhas estatais e abrem caminhos para que nenhuma vida desapareça sem resposta.
Campanha da ComCausa
Ao longo desta semana, a ComCausa irá publicar cinco reportagens especiais no Portal C3 e na Rede DH, além das páginas oficiais ComCausa e acolher.desaparecidos nas redes sociais. O conteúdo combina dados atualizados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 com informações detalhadas sobre os postos de coleta de DNA no estado do Rio de Janeiro.
O foco é atingir famílias que, por falta de informação ou por dificuldade de deslocamento, ainda não participaram dessa ação fundamental para abastecer os bancos estadual e nacional de perfis genéticos, ferramenta essencial para cruzar informações e auxiliar nas investigações.
Quem pode participar e como contribuir
- Documentos necessários: documento de identidade com foto e boletim de ocorrência do desaparecimento.
- Quem pode doar: pais, mães, filhos ou irmãos biológicos da pessoa desaparecida.
- Fora do período de mutirão: é possível fazer a coleta mediante agendamento prévio diretamente nos postos indicados.
O procedimento é simples, rápido e indolor:
- Com um cotonete, coleta-se uma amostra de células da parte interna da bochecha; ou
- Retira-se uma gota de sangue do dedo.
O material é processado e armazenado nos bancos de perfis genéticos, que são constantemente comparados com registros de pessoas internadas sem identificação, acolhidas em instituições de saúde ou assistência social, e restos mortais não identificados.
Serviço – Postos de coleta de DNA no Rio de Janeiro
Período: até 15 de agosto de 2025
Quem pode doar: pais, mães, filhos e irmãos biológicos.
O que levar: documento de identidade e boletim de ocorrência.
1. Posto Regional – Nova Iguaçu
Rua Edna, s/n – Posse – CEP 26030-430
2. Posto Regional – Duque de Caxias
Rua Ailton da Costa, s/n – Vinte e Cinco de Agosto – CEP 25071-160
3. Posto Regional – Campo Grande
Estrada do Mendanha, 1672 (fundos) – CEP 23087-285
4. Posto Regional – Niterói
Travessa Comandante Garcia Dávila, 51 – Santana, Largo do Barradas – CEP 24110-004
Articulação com familiares e lideranças
Nesta segunda-feira (11), a ComCausa participou de uma reunião virtual convocada pela Superintendência de Prevenção e Enfrentamento ao Desaparecimento de Pessoas e Acesso à Documentação Básica, vinculada à Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Estado do Rio de Janeiro. O encontro reuniu familiares de pessoas desaparecidas, lideranças comunitárias e representantes de organizações da sociedade civil.
Durante a reunião, foram debatidas estratégias conjuntas para ampliar o alcance da campanha de coleta de DNA e fortalecer as redes de apoio às famílias, com a consciência de que cada perfil genético coletado representa um passo concreto para aumentar as chances de localização e identificação das pessoas desaparecidas.
Mobilizações no Rio de Janeiro marcam o Dia Internacional de Pessoas Desaparecidas
O Rio de Janeiro terá, ao longo do mês de agosto, uma intensa agenda de atividades voltadas à memória, à mobilização social e ao fortalecimento das políticas públicas para enfrentamento ao desaparecimento de pessoas. As ações se somam à data reconhecida internacionalmente em 30 de agosto pela Organização das Nações Unidas (ONU), que busca garantir o direito à verdade, à busca e à justiça, especialmente nos casos de desaparecimento forçado.
As iniciativas reúnem familiares, organizações da sociedade civil, autoridades públicas e representantes de diferentes tradições religiosas, reforçando a importância de manter viva a pauta e combater a invisibilidade que cerca o tema no Brasil.
Agenda de agosto
- 21 de agosto, às 10h – Encontro sobre Desaparecidos no Ministério Público Federal do Rio de Janeiro,
- 27 de agosto, horário a confirmar – Audiência sobre Desaparecimentos na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, em Brasília, com participação de representantes do Rio de Janeiro.
- 29 de agosto, às 10h – Audiência Pública sobre Desaparecimentos na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), com foco em políticas estaduais.
Atos principais
- 30 de agosto (sábado) – Ato inter-religioso na Quinta da Boa Vista, a partir das 9h, promovido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro por meio da Superintendência de Prevenção e Enfrentamento ao Desaparecimento de Pessoas e Acesso à Documentação Básica, vinculada à Secretaria de Assistência Social. O evento, realizado ao lado do estacionamento oficial do parque, reunirá lideranças religiosas, familiares e apoiadores em um momento de reflexão, acolhimento e união pela causa.
- 31 de agosto (domingo) – 2ª Caminhada pelo Dia Internacional de Pessoas Desaparecidas, das 9h às 15h, promovida pelos familiares, com concentração no Posto 4 de Copacabana. Reconhecida pela ONU, a data reforça o compromisso global de não deixar que esses casos sejam esquecidos. No Brasil, a caminhada simboliza a continuidade da luta, homenageando as vítimas e reafirmando a resistência das famílias frente ao silêncio e à impunidade.
Imagem de capa: Mães de Maio | Chacina da Baixada | ComCausa
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