A prevenção de desastres no Brasil deixou de ser apenas um tema técnico restrito a meteorologistas, engenheiros, geólogos e agentes públicos. Com o avanço das mudanças climáticas, o crescimento das desigualdades urbanas e a repetição de tragédias provocadas por chuvas, enchentes, deslizamentos e alagamentos, essa agenda passou a ocupar um lugar central no debate sobre direitos humanos, justiça climática, moradia digna, participação popular e defesa da vida.

É nesse cenário que se insere a aproximação entre a ComCausa Defesa da Vida,Cemaden Educação e a agenda do Ministério das Cidades, especialmente por meio da campanha nacional #AprenderParaPrevenir: Cidades Sem Risco. Após realizar, em 2026, uma ação territorial em Tinguá, Nova Iguaçu, dentro da mobilização nacional, a ComCausa passou a fortalecer uma interlocução com instituições públicas ligadas à prevenção de riscos, à educação climática e à proteção das populações mais vulneráveis.

A organização, que tem trajetória marcada pela defesa dos direitos humanos, comunicação comunitária, memória social e incidência pública, enxerga a pauta climática como uma das grandes frentes de luta das periferias brasileiras. Para a ComCausa, não basta falar em chuva forte, alerta meteorológico ou resposta emergencial. É necessário reconhecer que os desastres atingem com maior intensidade os territórios onde faltam saneamento, drenagem, contenção de encostas, moradia segura, planejamento urbano, informação acessível e presença permanente do poder público.

A força da ComCausa nessa pauta vem justamente de sua capacidade de transformar temas complexos em linguagem comunitária, mobilização social e compromisso com a vida concreta das pessoas. A organização não trata a prevenção de desastres apenas como uma política de gabinete, mas como uma agenda que precisa chegar à praça, à escola, à associação de moradores, ao grupo de WhatsApp, às famílias que vivem perto dos rios, às comunidades de encosta, às lideranças locais e aos territórios historicamente invisibilizados.

O Cemaden e a virada brasileira para a prevenção

Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, conhecido como Cemaden, tornou-se uma das principais estruturas públicas do Brasil na área de monitoramento de riscos. Criado em 2011, no contexto posterior à tragédia da Região Serrana do Rio de Janeiro, o órgão passou a simbolizar uma mudança de postura do Estado brasileiro: sair de uma lógica baseada apenas na resposta depois da tragédia para uma política de monitoramento, alerta precoce e prevenção.

A tragédia da Região Serrana, ocorrida em janeiro de 2011, atingiu municípios como Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis, deixando centenas de mortos, desaparecidos, famílias desabrigadas e comunidades destruídas. A dimensão do desastre demonstrou que o Brasil precisava de um sistema nacional capaz de reunir ciência, tecnologia, meteorologia, hidrologia, geologia e gestão pública para antecipar riscos e apoiar decisões de emergência.

O Cemaden passou, então, a atuar no acompanhamento de áreas suscetíveis a enchentes, inundações, enxurradas, deslizamentos, secas e outros eventos extremos. Seu trabalho é realizado de forma contínua, com dados técnicos e emissão de alertas destinados principalmente aos órgãos de proteção e Defesa Civil. Esses alertas podem orientar retirada preventiva de moradores, mobilização de equipes, interdição de áreas ameaçadas e comunicação de risco para a população.

Mas o desafio brasileiro vai além da emissão técnica do alerta. Um aviso só salva vidas quando chega a tempo, em linguagem compreensível, por canais confiáveis e com capacidade de mobilização local. É nesse ponto que a atuação de organizações sociais como a ComCausa se torna fundamental. A ciência produz o dado; o território precisa transformar esse dado em ação.

Ministério das Cidades, Secretaria Nacional de Periferias e Periferia Sem Risco

A campanha Cidades Sem Risco se conecta à estratégia Periferia Sem Risco, desenvolvida no âmbito do Ministério das Cidades, por meio da Secretaria Nacional de Periferias. Essa secretaria representa uma mudança importante na forma de o Estado olhar para os territórios populares. As periferias deixam de ser vistas apenas como espaços de carência e passam a ser reconhecidas como lugares de produção de conhecimento, organização comunitária, cultura, resistência, inovação social e participação política.

De acordo com o material do Ministério das Cidades, a estratégia Periferia Sem Risco tem como objetivo fortalecer capacidades locais de infraestrutura, planejamento, informação e participação social para enfrentar desigualdades e reduzir vulnerabilidades relacionadas a riscos de deslizamento e inundação nas periferias brasileiras. A lógica da política é impedir o surgimento de novas áreas de risco e reduzir os riscos já identificados, construindo uma política antecipatória de segurança urbana.

A estratégia está organizada em três grandes eixos: infraestrutura, com obras de contenção de encostas e soluções baseadas na natureza; mapeamento e planejamento, com Planos Municipais de Redução de Riscos e Planos Comunitários de Gestão de Riscos de Desastres; e comunicação e participação, com cartilhas, guias, manuais, publicações técnicas, parcerias com universidades, governos municipais e visitas sociotécnicas a comunidades periféricas.

Essa visão dialoga diretamente com a experiência da ComCausa. A organização compreende que a prevenção não se resume a obras, embora as obras sejam necessárias. Também não se resume a mapas, embora os mapas sejam importantes. Prevenção exige escuta, comunicação, memória, educação, confiança comunitária e presença nos territórios antes, durante e depois das chuvas.

A força da ComCausa: território, memória e comunicação popular

A força da ComCausa está em sua capacidade de unir direitos humanos, comunicação social, memória coletiva e mobilização comunitária. Em vez de tratar a tragédia como um fato isolado, a organização busca compreender as causas estruturais que transformam fenômenos naturais em violações de direitos.

A frase que orientou sua campanha — “A chuva não mata sozinha” — resume essa compreensão. A chuva pode ser intensa, mas ela se torna tragédia quando encontra moradias vulneráveis, rios assoreados, drenagem precária, encostas desprotegidas, ausência de saneamento, falta de alertas, racismo ambiental e abandono histórico do poder público.

Em 2026, a ComCausa integrou a campanha nacional Cidades Sem Risco / #AprenderParaPrevenir com uma proposta voltada à memória das enchentes e à justiça climática no Rio de Janeiro. A iniciativa teve como foco lembrar tragédias climáticas históricas, debater riscos atuais e mobilizar comunidades para a prevenção. O material compartilhado pela própria organização destaca que a campanha trabalhou a memória das enchentes, alagamentos, inundações, deslizamentos e tragédias climáticas no Rio desde a década de 1980, passando por episódios como a Região Serrana, Xerém, Petrópolis, Nova Iguaçu e Tinguá.

A escolha de Tinguá, em Nova Iguaçu, teve grande significado. O território reúne importância ambiental, presença comunitária, áreas sensíveis, memória local e vulnerabilidades diante das chuvas. Ao levar a campanha para Tinguá, a ComCausa colocou a Baixada Fluminense no centro do debate sobre justiça climática. A mensagem foi clara: os territórios periféricos não podem ser lembrados apenas quando a água invade casas, quando pontes caem, quando barreiras deslizam ou quando famílias perdem tudo.

Interlocução após a campanha

Após a realização da campanha em 2026, a ComCausa passou a buscar e fortalecer interlocuções com instituições relacionadas à prevenção de riscos e à justiça climática, incluindo o Cemaden e a agenda do Ministério das Cidades. Essa interlocução tem valor estratégico porque aproxima a experiência comunitária da organização de estruturas públicas capazes de produzir dados, alertas, metodologias, materiais educativos e políticas de prevenção.

A ComCausa chega a esse diálogo não como uma entidade externa ao tema, mas como uma organização que já atuou na ponta, mobilizou território, produziu comunicação e construiu uma narrativa de memória e justiça. Sua contribuição está em lembrar que a prevenção precisa ser construída com as pessoas que vivem o risco no cotidiano. Moradores sabem onde a água sobe primeiro, quais ruas alagam, onde a barreira ameaça ceder, quais famílias precisam de apoio, quais idosos vivem sozinhos e quais caminhos ficam bloqueados durante temporais.

A interlocução com o Cemaden, portanto, pode abrir caminhos para novas ações de formação, produção de materiais populares, atividades educativas, apoio a comunidades, rodas de conversa, mapas falados de risco e campanhas de comunicação voltadas para a realidade da Baixada Fluminense.

Essa é a força da ComCausa: transformar uma campanha em processo, uma ação local em articulação institucional e uma experiência comunitária em defesa permanente da vida.

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