As enchentes que atingem o Rio de Janeiro não são resultado apenas da força da chuva. Elas revelam uma crise urbana construída ao longo de décadas, marcada por ocupação desordenada, canalização de rios, aterramento de áreas alagáveis, obras incompletas, déficit de saneamento e ausência de políticas permanentes de prevenção em favelas, periferias e municípios da Baixada Fluminense.

O problema é antigo. Estudos históricos registram enchentes urbanas no Rio desde o século XIX, em debates sobre saneamento, drenagem, inundações e expansão da cidade. Ou seja, a repetição dos alagamentos não pode ser tratada como surpresa. Trata-se de um risco conhecido, documentado e agravado pela forma como a cidade cresceu.

Com o avanço da urbanização, rios foram retificados ou canalizados, brejos e lagoas foram aterrados, encostas passaram a receber moradias sem infraestrutura adequada e bairros populares cresceram sem redes suficientes de drenagem, esgoto, pavimentação e coleta de lixo. Quando a chuva forte chega, a água encontra menos solo permeável, mais concreto e sistemas urbanos incapazes de absorver o volume acumulado.

Essa desigualdade aparece com mais força na Zona Norte, na Baixada Fluminense e nas favelas. Enquanto áreas mais valorizadas receberam mais investimentos em contenção, drenagem e serviços urbanos, populações pobres foram empurradas para margens de rios, baixadas, encostas e áreas ambientalmente vulneráveis. A enchente, nesse contexto, desenha uma geografia social do risco.

A Baixada Fluminense é um dos principais exemplos. A região reúne municípios densamente povoados, cortados por rios, canais e áreas historicamente sujeitas a alagamentos. Dados do Censo 2022 indicam que mais de 2,4 milhões de moradores da Baixada se declaram pretos ou pardos, o que reforça o vínculo entre vulnerabilidade ambiental, desigualdade racial e ausência de infraestrutura.

Esse cenário é definido por especialistas e movimentos sociais como racismo ambiental: quando populações negras, pobres e periféricas ficam mais expostas a enchentes, calor extremo, poluição, falta de saneamento e outros riscos, ao mesmo tempo em que recebem menos proteção do Estado.

As tragédias recentes repetem esse padrão. Em janeiro de 2024, temporais no Rio deixaram 12 mortos, mais de 9 mil desalojados e cerca de 300 desabrigados, com ruas alagadas e casas destruídas, especialmente em comunidades pobres da Região Metropolitana.

Em fevereiro de 2026, novas chuvas atingiram áreas da Baixada Fluminense e bairros como Acari, Fazenda Botafogo, Higienópolis e Manguinhos. O episódio voltou a expor perdas materiais, traumas e a falta de políticas públicas estruturais em territórios historicamente negligenciados.

A legislação brasileira já reconhece saneamento e drenagem como políticas essenciais. A Lei Federal nº 11.445/2007 estabeleceu diretrizes nacionais para o saneamento básico, e a Lei nº 14.026/2020 atualizou o marco legal do setor, com metas de universalização até 2033: 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto.

No município do Rio, o plano de drenagem e manejo de águas pluviais tem como objetivo controlar enchentes e proteger a saúde pública, a vida e o patrimônio. A existência desse planejamento mostra que o poder público conhece o problema. A questão central é a execução desigual, lenta ou insuficiente das soluções.

Por isso, dizer que a história das enchentes no Rio é também a história das periferias significa reconhecer que a chuva pode ser natural, mas o desastre é social. A destruição depende de onde há obra, saneamento, alerta, moradia segura, coleta de lixo, contenção de encostas e planejamento urbano — e de onde tudo isso ainda falta.

Cada temporal revela mais do que ruas alagadas. Revela escolhas políticas, prioridades orçamentárias e omissões históricas. Enquanto a prevenção não chegar com a mesma força aos territórios mais vulneráveis, as enchentes continuarão repetindo a desigualdade que estrutura a cidade.

Campanha “A Chuva Não Mata Sozinha: Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro”

Esta matéria faz parte da campanha “A Chuva Não Mata Sozinha: Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro” é uma iniciativa da organização ComCausa Defesa da Vida, realizada entre 18 e 25 de maio de 2026, com ações de mobilização social, educação comunitária e comunicação digital voltadas à prevenção de desastres climáticos em periferias e áreas de risco.

A proposta integra a 9ª Campanha Nacional #AprenderParaPrevenir — Cidades Sem Risco, ligada ao debate sobre adaptação climática, redução de riscos e proteção da vida, em articulação com instituições como o Ministério das Cidades, Cemaden Educação/MCTI e MEC. A campanha defende que tragédias causadas pelas chuvas estão relacionadas à desigualdade urbana, à falta de saneamento, drenagem, moradia segura e políticas públicas de prevenção.

A campanha também vai lançar a cartilha eletrônica “A Chuva Não Mata Sozinha: Guia Popular de Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro”, além de cards educativos, vídeos, linha do tempo das tragédias climáticas.

ComCausa realiza atividade em Tinguá sobre memória, enchentes e justiça climática

No sábado, 23 de maio, a partir das 9h, a ComCausa Defesa da Vida realizará uma atividade presencial e cobertura comunitária na Praça de Tinguá, em Nova Iguaçu, como parte da campanha “A Chuva Não Mata Sozinha: Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro”. A ação contará com mobilização popular, produção de conteúdo e diálogo sobre prevenção de riscos, enchentes, justiça climática e proteção da vida nas periferias e áreas vulneráveis da Baixada Fluminense.

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