O Brasil vive um momento em que a defesa da liberdade religiosa se coloca não apenas como herança histórica, mas como tarefa urgente para a construção de um futuro mais justo. Segundo o Censo 2022 do IBGE, quase 23% da população brasileira tem até 29 anos — ou seja, estamos diante de mais de 47 milhões de jovens. É nessa parcela que repousa a responsabilidade de sustentar os valores da convivência plural, do respeito às diferenças e da resistência contra o avanço da intolerância.
A juventude brasileira, em sua diversidade social e cultural, é herdeira de uma história marcada por perseguições, mas também por reinvenções. E, ao mesmo tempo, é protagonista da luta contemporânea que liga passado e futuro. Se a liberdade de crença foi conquistada como cláusula pétrea da Constituição de 1988, é nos corpos e nas vozes de crianças e adolescentes que se decide, hoje, se esse direito será preservado ou corroído pelo preconceito.
O peso dos números: intolerância contra crianças e adolescentes
Os dados recentes reforçam a gravidade do cenário. Em 2024, o Disque 100 recebeu 2,4 mil denúncias de intolerância religiosa, um salto de 66,8% em relação a 2023. Entre esses casos, quase 30% tiveram como vítimas crianças e adolescentes, a maioria em escolas e espaços educativos. Isso significa que uma em cada três denúncias de intolerância religiosa no Brasil tem como alvo pessoas em idade escolar. Trata-se de um alerta contundente: o preconceito está se reproduzindo em ambientes que deveriam ser espaços de proteção e de formação cidadã.
O Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ) registrou, apenas em 2023, quase 3 mil ocorrências criminais ligadas à intolerância religiosa, com 34 casos formalmente tipificados como ultraje a culto. Em 2024, os registros aumentaram para 39 ultrajes e 33 ocorrências de intolerância religiosa. As zonas Norte e Oeste da capital, além da Baixada Fluminense, concentram a maior parte dos casos, espelhando a sobreposição entre desigualdade socioespacial, ausência de políticas públicas e presença de grupos armados.
A Baixada Fluminense como território de risco
Na Baixada Fluminense, os números ganham rostos e histórias. Pesquisas da UFRRJ e da UFF apontam que o racismo religioso é uma das formas mais recorrentes de discriminação sofrida por jovens na região. Em cidades como Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Belford Roxo, Queimados e São João de Meriti, crianças relatam esconder suas identidades religiosas por medo de retaliação. Casos de terreiros incendiados, casas de axé depredadas, sacerdotes ameaçados e estudantes constrangidos em escolas públicas são cada vez mais comuns. Essa violência, muitas vezes, é potencializada por grupos criminosos que tentam impor uma “limpeza religiosa” em territórios vulnerabilizados.
Em 2022, a própria DECRADI-RJ (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) já havia mapeado cerca de 200 casas de axé atacadas somente na capital e região metropolitana. Esse histórico mostra que não se trata de fenômeno episódico, mas de uma perseguição estrutural, que atravessa décadas e se reinventa no presente.
Educação: campo de disputa e de esperança
Apesar dos avanços legais — como a Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira, e a Lei 11.645/2008, que incluiu a cultura indígena —, a realidade nas escolas ainda está distante do ideal. Relatórios do MEC de 2022 mostram que apenas 37% das escolas públicas aplicam integralmente os conteúdos previstos nessas leis.
Isso significa que milhões de estudantes crescem sem contato com narrativas que valorizem a contribuição afro-indígena para a formação do Brasil, alimentando a ignorância que sustenta o preconceito. A escola, que deveria ser lugar de acolhimento e diálogo, em muitos casos se converte em espaço de exclusão e reforço de estigmas.
Mas é justamente nesse terreno que se ergue a resistência. Núcleos de educação antirracista em Nova Iguaçu e Duque de Caxias têm mostrado caminhos concretos: rodas de leitura sobre cultura africana, oficinas de percussão, aulas públicas de história afro-brasileira e formação de professores comprometidos com a diversidade. Essas iniciativas indicam que a educação pode ser fronteira da resistência, desde que acompanhada de políticas públicas estruturadas.
Cultura e redes: a juventude fala por si
Fora da sala de aula, os jovens encontram na cultura e nas redes sociais ferramentas de enfrentamento. O rap, o funk consciente, as batalhas de slam, os saraus periféricos e os coletivos audiovisuais transformaram-se em palcos de denúncia contra o racismo religioso. Movimentos como o “Juventude de Axé” articulam terreiros e coletivos culturais, promovendo a autoestima e a visibilidade positiva das tradições afro-brasileiras. Para essa juventude, cantar, rimar ou filmar não é apenas arte: é ato político, é resistência, é defesa da liberdade de fé como direito humano inegociável.
O papel da ComCausa
A ComCausa Defesa da Vida entende que juventude e educação são as linhas de frente na luta pela liberdade religiosa. Proteger jovens significa proteger o futuro da democracia brasileira. “A juventude é guardiã do futuro da democracia. Quando uma criança é impedida de expressar sua fé, não é apenas ela que sofre: é toda a sociedade que se empobrece”.
A organização defende políticas públicas que vão além da repressão penal: protocolos escolares contra bullying religioso, formação de educadores para o respeito à diversidade, campanhas permanentes de conscientização e fortalecimento de núcleos comunitários de proteção. O objetivo é claro: que cada escola, da Baixada Fluminense ao interior do Brasil, seja território de convivência, respeito e cidadania.
Semana ComCausa pela Liberdade Religiosa
A ComCausa Defesa da Vida inicia, realiza esta Semana ComCausa pela Liberdade Religiosa, um movimento de sete dias dedicado a partilhar reflexões históricas, apresentar dados e mobilizar a sociedade em favor do respeito à diversidade de crenças. De forma simples e comprometida, buscamos contribuir para a conscientização e convidar todas as pessoas a se unirem à 18ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, que acontecerá no próximo domingo (21/09), na Praia de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro.
Reconhecida como um dos maiores atos públicos do país em prol do respeito à pluralidade de fé, a Caminhada, organizada pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) e pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), chega à sua 18ª edição com o lema “Pelos meus, pelos seus, pelos nossos, eu vou!”. O evento reúne lideranças religiosas de diferentes tradições, militantes de direitos humanos, artistas, educadores, coletivos culturais e representantes do poder público
Ao longo da semana, serão publicadas matérias especiais, que estarão disponíveis no Portal C3 e na Rede DH da ComCausa, além de conteúdos exclusivos nas redes sociais da instituição, ampliando o alcance da mobilização e convidando toda a sociedade a participar desta caminhada coletiva em defesa da liberdade religiosa.
Serviço
Evento: 18ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa
Data: Domingo, 21 de setembro de 2025
Horário: 10h às 17h
Concentração: Posto 5 (Avenida Atlântica, em frente aos números 3.628 e 3.604, esquina com a Rua Sá Ferreira)
Saída: 13h
Encerramento: Praça do Lido, Posto 2
Estrutura: Trios elétricos, tenda, banheiros químicos, aguadeiros, ambulâncias, carrinhos elétricos e posto de verificação de pressão arterial
Imagem de capa ilustrativa
Leia também
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