De crimes violentos a crises familiares, desaparecimentos têm origens diversas — e muitas vezes evitáveis

O desaparecimento de uma pessoa, para além da tragédia individual que representa, é um fenômeno social complexo e multifacetado, cujas causas dialogam diretamente com a realidade política, econômica e cultural do país. Embora nem todo desaparecimento decorra de um crime, no Brasil contemporâneo — marcado por profundas desigualdades estruturais, racismo institucional e violência generalizada —, um número expressivo desses casos está vinculado, de forma direta ou indireta, a ações criminosas e contextos de vulnerabilidade evitáveis.

Segundo o  Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, mais de 73 mil registros de desaparecimento foram realizados em 2024, o equivalente a mais de 200 por dia, ou um caso a cada sete minutos. No Estado do Rio de Janeiro, o Instituto de Segurança Pública (ISP/RJ) registrou 12.005 desaparecimentos no mesmo período, com mais de 40% concentrados na Baixada Fluminense — região que, ao lado da capital, também acumula quase metade das mortes violentas do estado.

Essa sobreposição territorial entre desaparecimentos e violência letal não é casual: estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em áreas de forte presença de milícias ou facções, o desaparecimento é frequentemente usado como método para ocultar homicídios, dificultar investigações e manter o controle social pelo medo.

Crime organizado e violência de Estado

Anuário 2025 aponta que uma parcela significativa dos desaparecimentos está relacionada a homicídios ocultadosdesaparecimentos forçados e sequestros. Nessas situações, o corpo da vítima é deliberadamente ocultado, seja para dificultar a comprovação do crime, seja para inviabilizar a responsabilização penal dos autores.

No Rio de Janeiro e em outros estados, há registros recorrentes que associam desaparecimentos à atuação de milícias, que utilizam o sumiço como instrumento de intimidação contra moradores, lideranças comunitárias e comerciantes. Já no contexto do tráfico de drogas, facções empregam o desaparecimento como forma de represália, especialmente contra indivíduos suspeitos de colaborar com grupos rivais ou forças policiais.

Não menos preocupante é a ocorrência de desaparecimentos forçados atribuídos a agentes estatais, tema que remete a um histórico de violações de direitos humanos no Brasil. Embora a tipificação penal do desaparecimento forçado ainda seja limitada, organizações de direitos humanos documentam casos em que abordagens policiais resultaram em sumiços permanentes, com indícios de execuções extrajudiciais seguidas de ocultação de cadáver.

Tráfico de pessoas e exploração sexual

Outra dimensão crítica envolve o tráfico de pessoas, crime que, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, afeta especialmente mulheres, adolescentes e crianças negras. O desaparecimento, nesse contexto, é muitas vezes o primeiro passo para a inserção das vítimas em redes de exploração sexual, trabalho escravo ou servidão doméstica.

Anuário destaca que, entre meninas de 10 a 17 anos registradas como desaparecidas, há uma correlação significativa com investigações de abuso sexual e exploração comercial do corpo. Em áreas de fronteira e rotas migratórias, a ausência de fiscalização efetiva e de políticas de proteção amplia a vulnerabilidade e favorece o aliciamento por redes transnacionais.

O drama doméstico: fugas e conflitos familiares

Uma fatia importante dos desaparecimentos, especialmente entre crianças e adolescentes, ocorre por fuga voluntária motivada por violência doméstica, maus-tratos, negligência, abuso sexual ou restrições severas impostas pelos responsáveis. O que, em um primeiro momento, pode ser visto como ato de rebeldia ou insubordinação, é, para muitos especialistas, um mecanismo de autopreservação diante de situações insuportáveis no ambiente familiar.

Conflitos conjugais e disputas judiciais pela guarda de filhos também geram desaparecimentos temporários ou prolongados, seja por afastamento não autorizado de um dos genitores, seja pela ocultação intencional da criança.

Saúde mental, acidentes e desorientação

saúde mental é outro fator relevante e muitas vezes negligenciado nas políticas de prevenção. Pessoas em crise — com quadros depressivos graves, surtos psicóticos ou transtornos de ansiedade — podem se afastar de casa e romper contatos, colocando-se em risco de violência, exploração ou morte acidental.

Entre idosos, a incidência de desaparecimentos associados a demências e outras doenças neurodegenerativas é alta. O Anuário estima que até 12% dos desaparecimentos de idosos no Brasil têm relação direta com distúrbios cognitivos. Nesses casos, a ausência de cuidados especializados e de sistemas de alerta rápido agrava a probabilidade de um desfecho fatal.

Acidentes em áreas rurais, desastres ambientais e eventos climáticos extremos, como enchentes e deslizamentos, também podem resultar em desaparecimentos, embora representem um percentual menor do total nacional.

Prevenção: da reação à antecipação

Especialistas defendem que o Brasil precisa urgentemente migrar de uma lógica predominantemente reativa — centrada na busca após o sumiço — para uma estratégia preventiva, articulando campanhas massivas de informação pública, fortalecimento da rede de proteção social e intervenção precoce em contextos de risco.

Países que obtiveram reduções significativas nos índices de desaparecimento investiram em protocolos de alerta imediato, integração de bancos de dados entre polícias e órgãos civis, treinamento especializado para forças de segurança e políticas de proteção comunitária. No Brasil, embora haja iniciativas pontuais — como a criação de cadastros estaduais, a instalação de comitês e a coleta de DNA de familiares —, a ausência de uma política nacional unificada compromete a eficácia e a continuidade dessas ações.

Um fenômeno evitável, mas persistente

Ao analisar as múltiplas causas do desaparecimento, torna-se evidente que muitos casos poderiam ser evitados se houvesse resposta estatal rápida, políticas públicas robustas e atuação integrada entre áreas como segurança, assistência social, saúde e educação.

O desaparecimento, portanto, não deve ser visto apenas como um drama privado, mas como um indicador da falência parcial do Estado na garantia de direitos básicos. Cada registro nas estatísticas representa não só uma pessoa ausente, mas também o fracasso de mecanismos de prevenção, proteção e cuidado que poderiam ter impedido que esse sumiço ocorresse.

Campanha da ComCausa

Ao longo desta semana, a ComCausa irá publicar cinco reportagens especiais no Portal C3 e na Rede DH, além das páginas oficiais ComCausa e acolher.desaparecidos nas redes sociais. O conteúdo combina dados atualizados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 com informações detalhadas sobre os postos de coleta de DNA no estado do Rio de Janeiro.

O foco é atingir famílias que, por falta de informação ou por dificuldade de deslocamento, ainda não participaram dessa ação fundamental para abastecer os bancos estadual e nacional de perfis genéticos, ferramenta essencial para cruzar informações e auxiliar nas investigações.

Quem pode participar e como contribuir

  • Documentos necessários: documento de identidade com foto e boletim de ocorrência do desaparecimento.
  • Quem pode doar: pais, mães, filhos ou irmãos biológicos da pessoa desaparecida.
  • Fora do período de mutirão: é possível fazer a coleta mediante agendamento prévio diretamente nos postos indicados.

O procedimento é simples, rápido e indolor:

  • Com um cotonete, coleta-se uma amostra de células da parte interna da bochecha; ou
  • Retira-se uma gota de sangue do dedo.

O material é processado e armazenado nos bancos de perfis genéticos, que são constantemente comparados com registros de pessoas internadas sem identificação, acolhidas em instituições de saúde ou assistência social, e restos mortais não identificados.

Serviço – Postos de coleta de DNA no Rio de Janeiro

Período: até 15 de agosto de 2025
Quem pode doar: pais, mães, filhos e irmãos biológicos.
O que levar: documento de identidade e boletim de ocorrência.

1. Posto Regional – Nova Iguaçu
Rua Edna, s/n – Posse – CEP 26030-430

2. Posto Regional – Duque de Caxias
Rua Ailton da Costa, s/n – Vinte e Cinco de Agosto – CEP 25071-160

3. Posto Regional – Campo Grande
Estrada do Mendanha, 1672 (fundos) – CEP 23087-285

4. Posto Regional – Niterói
Travessa Comandante Garcia Dávila, 51 – Santana, Largo do Barradas – CEP 24110-004

Articulação com familiares e lideranças

Nesta segunda-feira (11), a ComCausa participou de uma reunião virtual convocada pela Superintendência de Prevenção e Enfrentamento ao Desaparecimento de Pessoas e Acesso à Documentação Básica, vinculada à Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Estado do Rio de Janeiro. O encontro reuniu familiares de pessoas desaparecidas, lideranças comunitárias e representantes de organizações da sociedade civil.

Durante a reunião, foram debatidas estratégias conjuntas para ampliar o alcance da campanha de coleta de DNA e fortalecer as redes de apoio às famílias, com a consciência de que cada perfil genético coletado representa um passo concreto para aumentar as chances de localização e identificação das pessoas desaparecidas.

Leia a matéria completa: Reunião no Rio articula mobilizações e campanhas pelo Dia Internacional de Pessoas Desaparecidas

Mobilizações no Rio de Janeiro marcam o Dia Internacional de Pessoas Desaparecidas

O Rio de Janeiro terá, ao longo do mês de agosto, uma intensa agenda de atividades voltadas à memória, à mobilização social e ao fortalecimento das políticas públicas para enfrentamento ao desaparecimento de pessoas. As ações se somam à data reconhecida internacionalmente em 30 de agosto pela Organização das Nações Unidas (ONU), que busca garantir o direito à verdade, à busca e à justiça, especialmente nos casos de desaparecimento forçado.

As iniciativas reúnem familiares, organizações da sociedade civil, autoridades públicas e representantes de diferentes tradições religiosas, reforçando a importância de manter viva a pauta e combater a invisibilidade que cerca o tema no Brasil.

Agenda de agosto

Atos principais

  • 30 de agosto (sábado) – Ato inter-religioso na Quinta da Boa Vista, a partir das 9h, promovido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro por meio da Superintendência de Prevenção e Enfrentamento ao Desaparecimento de Pessoas e Acesso à Documentação Básica, vinculada à Secretaria de Assistência Social. O evento, realizado ao lado do estacionamento oficial do parque, reunirá lideranças religiosas, familiares e apoiadores em um momento de reflexão, acolhimento e união pela causa.
  • 31 de agosto (domingo) – 2ª Caminhada pelo Dia Internacional de Pessoas Desaparecidas, das 9h às 15h, promovida pelos familiares, com concentração no Posto 4 de Copacabana. Reconhecida pela ONU, a data reforça o compromisso global de não deixar que esses casos sejam esquecidos. No Brasil, a caminhada simboliza a continuidade da luta, homenageando as vítimas e reafirmando a resistência das famílias frente ao silêncio e à impunidade.

Imagem de capa ilustrativa.

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