O Brasil vive uma crise silenciosa. Em 2024, foram 81.873 registros de desaparecimentos em todo o território nacional, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Apesar da queda nas mortes violentas intencionais, o número de pessoas que somem sem deixar rastros cresce e levanta suspeitas de que parte dessas ocorrências encubra homicídios e desaparecimentos forçados.
Entre 2018 e 2024, os registros oscilaram, mas com tendência de alta em alguns estados. O crescimento é particularmente preocupante no Norte e no Nordeste, onde a combinação de vulnerabilidade social, disputas territoriais e atuação de facções aumenta o risco de desaparecimentos ligados a crimes violentos. Especialistas alertam que a falta de padronização na coleta de dados e o atraso na investigação prejudicam a solução dos casos.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que a invisibilidade estatística é um dos maiores entraves: muitas famílias não registram o desaparecimento por medo de represália ou desconfiança nas autoridades. E quando registram, enfrentam um labirinto burocrático que pode atrasar as buscas cruciais nas primeiras horas.
Tendências e desigualdades regionais
Entre 2018 e 2024, o país apresentou oscilações no volume de registros, mas com tendência de alta em estados das regiões Norte e Nordeste. Essa elevação está relacionada a um contexto multifatorial: altos índices de vulnerabilidade social, ausência de políticas públicas de prevenção, atuação de facções criminosas, disputas por controle territorial e impactos da migração forçada. Em estados como Amazonas, Pará, Maranhão e Bahia, o avanço de economias ilícitas e a presença de áreas de difícil acesso dificultam investigações e resgates.
No Sudeste, apesar de a taxa bruta ser menor que a de outras regiões, a densidade populacional e a urbanização acentuada tornam a situação igualmente complexa. A Baixada Fluminense e áreas periféricas de capitais como São Paulo e Belo Horizonte são exemplos de territórios onde o desaparecimento se conecta a múltiplas formas de violência, incluindo conflitos com grupos armados, violência doméstica e exploração sexual.
O peso da subnotificação e a fragilidade investigativa
Um dos gargalos mais graves é a subnotificação. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública ressalta que muitas famílias não registram o desaparecimento por medo de retaliação, desconfiança nas instituições ou desconhecimento dos mecanismos de denúncia. Quando o registro é feito, a burocracia e a ausência de integração entre bancos de dados tornam as primeiras horas — consideradas decisivas para o sucesso das buscas — um tempo perdido.
A falta de padronização na coleta e classificação de dados também compromete o diagnóstico nacional. Há estados que registram desaparecimentos de forma genérica, sem detalhar perfil da vítima, contexto do sumiço ou vínculo com outras ocorrências criminais, o que dificulta a identificação de padrões e a formulação de políticas públicas.
Perfis das vítimas e vulnerabilidades
O Anuário evidencia que a maior parte das vítimas está concentrada nas faixas etárias entre 12 e 29 anos, com predominância de jovens negros, moradores de áreas urbanas periféricas e regiões com baixa presença estatal. Mulheres e crianças representam parcelas significativas dos casos, muitas vezes relacionados a violência doméstica, exploração sexual, tráfico de pessoas e conflitos familiares.
O desafio de transformar dados em ação
Apesar de avanços como a criação de bancos nacionais de perfis genéticos e mutirões para coleta de DNA de familiares, a resposta institucional ainda é fragmentada. A integração entre polícias civis, órgãos de assistência social e sistema judiciário é insuficiente, e a maioria dos estados não possui equipes especializadas para investigação de desaparecimentos.
Especialistas alertam que, sem investimento consistente em prevenção, investigação e apoio às famílias, o Brasil continuará a conviver com a naturalização da ausência — uma ferida aberta que atravessa gerações e deixa milhares de histórias sem desfecho.
Campanha da ComCausa
Ao longo desta semana, a ComCausa irá publicar cinco reportagens especiais no Portal C3 e na Rede DH, além das páginas oficiais ComCausa e acolher.desaparecidos nas redes sociais. O conteúdo combina dados atualizados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 com informações detalhadas sobre os postos de coleta de DNA no estado do Rio de Janeiro.
O foco é atingir famílias que, por falta de informação ou por dificuldade de deslocamento, ainda não participaram dessa ação fundamental para abastecer os bancos estadual e nacional de perfis genéticos, ferramenta essencial para cruzar informações e auxiliar nas investigações.
Quem pode participar e como contribuir
- Documentos necessários: documento de identidade com foto e boletim de ocorrência do desaparecimento.
- Quem pode doar: pais, mães, filhos ou irmãos biológicos da pessoa desaparecida.
- Fora do período de mutirão: é possível fazer a coleta mediante agendamento prévio diretamente nos postos indicados.
O procedimento é simples, rápido e indolor:
- Com um cotonete, coleta-se uma amostra de células da parte interna da bochecha; ou
- Retira-se uma gota de sangue do dedo.
O material é processado e armazenado nos bancos de perfis genéticos, que são constantemente comparados com registros de pessoas internadas sem identificação, acolhidas em instituições de saúde ou assistência social, e restos mortais não identificados.
Serviço – Postos de coleta de DNA no Rio de Janeiro
Período: até 15 de agosto de 2025
Quem pode doar: pais, mães, filhos e irmãos biológicos.
O que levar: documento de identidade e boletim de ocorrência.
1. Posto Regional – Nova Iguaçu
Rua Edna, s/n – Posse – CEP 26030-430
2. Posto Regional – Duque de Caxias
Rua Ailton da Costa, s/n – Vinte e Cinco de Agosto – CEP 25071-160
3. Posto Regional – Campo Grande
Estrada do Mendanha, 1672 (fundos) – CEP 23087-285
4. Posto Regional – Niterói
Travessa Comandante Garcia Dávila, 51 – Santana, Largo do Barradas – CEP 24110-004
Articulação com familiares e lideranças
Nesta segunda-feira (11), a ComCausa participou de uma reunião virtual convocada pela Superintendência de Prevenção e Enfrentamento ao Desaparecimento de Pessoas e Acesso à Documentação Básica, vinculada à Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Estado do Rio de Janeiro. O encontro reuniu familiares de pessoas desaparecidas, lideranças comunitárias e representantes de organizações da sociedade civil.
Durante a reunião, foram debatidas estratégias conjuntas para ampliar o alcance da campanha de coleta de DNA e fortalecer as redes de apoio às famílias, com a consciência de que cada perfil genético coletado representa um passo concreto para aumentar as chances de localização e identificação das pessoas desaparecidas.
Mobilizações no Rio de Janeiro marcam o Dia Internacional de Pessoas Desaparecidas
O Rio de Janeiro terá, ao longo do mês de agosto, uma intensa agenda de atividades voltadas à memória, à mobilização social e ao fortalecimento das políticas públicas para enfrentamento ao desaparecimento de pessoas. As ações se somam à data reconhecida internacionalmente em 30 de agosto pela Organização das Nações Unidas (ONU), que busca garantir o direito à verdade, à busca e à justiça, especialmente nos casos de desaparecimento forçado.
As iniciativas reúnem familiares, organizações da sociedade civil, autoridades públicas e representantes de diferentes tradições religiosas, reforçando a importância de manter viva a pauta e combater a invisibilidade que cerca o tema no Brasil.
Agenda de agosto
- 21 de agosto, às 10h – Encontro sobre Desaparecidos no Ministério Público Federal do Rio de Janeiro,
- 27 de agosto, horário a confirmar – Audiência sobre Desaparecimentos na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, em Brasília, com participação de representantes do Rio de Janeiro.
- 29 de agosto, às 10h – Audiência Pública sobre Desaparecimentos na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), com foco em políticas estaduais.
Atos principais
- 30 de agosto (sábado) – Ato inter-religioso na Quinta da Boa Vista, a partir das 9h, promovido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro por meio da Superintendência de Prevenção e Enfrentamento ao Desaparecimento de Pessoas e Acesso à Documentação Básica, vinculada à Secretaria de Assistência Social. O evento, realizado ao lado do estacionamento oficial do parque, reunirá lideranças religiosas, familiares e apoiadores em um momento de reflexão, acolhimento e união pela causa.
- 31 de agosto (domingo) – 2ª Caminhada pelo Dia Internacional de Pessoas Desaparecidas, das 9h às 15h, promovida pelos familiares, com concentração no Posto 4 de Copacabana. Reconhecida pela ONU, a data reforça o compromisso global de não deixar que esses casos sejam esquecidos. No Brasil, a caminhada simboliza a continuidade da luta, homenageando as vítimas e reafirmando a resistência das famílias frente ao silêncio e à impunidade.
Imagem de capa ilustrativa.
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