O brutal assassinato da estudante Melissa de Melo e Campos, de apenas 14 anos, ocorrido em 8 de maio de 2025, dentro de uma sala de aula do Colégio Livre Aprender, na cidade de Uberaba (MG), chocou profundamente a sociedade brasileira e gerou uma comoção pública de proporções nacionais. O caso expôs, de maneira crua e inegável, as múltiplas camadas de vulnerabilidade e violência que atravessam os espaços escolares e revelou o avanço preocupante de discursos de ódio, misoginia e banalização da vida no cotidiano juvenil.

Melissa foi atacada por um dos colegas de classe, enquanto outro assistia à cena com frieza. O crime, cometido diante de 19 alunos, ocorreu em plena luz do dia, dentro de um espaço que deveria ser de segurança, aprendizado e convivência. As investigações comprovaram que o ataque foi premeditado: os dois adolescentes haviam trocado mensagens e planejado cada detalhe da execução. Segundo os relatos, a motivação foi de um absurdo devastador — a jovem teria sido assassinada por “ser feliz demais”. Descrita por professores, colegas e familiares como afetuosa, dedicada, carismática e inteligente, Melissa representava o que há de mais promissor na juventude brasileira — e teve sua vida interrompida de forma violenta e inexplicável.

A tentativa de socorro, feita pelo próprio pai da vítima, que também atuava na escola como coordenador pedagógico, foi em vão. Melissa morreu nos braços de seu pai, ainda dentro da sala de aula, diante de uma geração de jovens que presenciou não apenas um assassinato, mas a ruptura de qualquer noção de segurança e confiança no espaço escolar.

O apelo da família e a proposta da “Lei Melissa Campos”

Indignados com a pena aplicada aos agressores — três anos de internação em unidade socioeducativa, conforme o limite máximo previsto no artigo 112, parágrafo 3º, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) — os familiares de Melissa, movidos pela dor e pelo sentimento de injustiça, decidiram agir. Criaram um novo abaixo-assinado e divulgaram publicamente a minuta da chamada Lei Melissa Campos, com o objetivo de promover alterações específicas na legislação infracional para adolescentes autores de crimes hediondos com violência grave.

A proposta não visa criminalizar a juventude periférica, tampouco ampliar a seletividade penal que recai sobre adolescentes em situação de vulnerabilidade. Ao contrário: o texto afirma de maneira inequívoca que seu objetivo é responder com firmeza a crimes de alta gravidade, como homicídio qualificado, estupro, latrocínio e ataques com motivação de ódio no ambiente escolar — preservando, assim, os adolescentes que cometeram atos infracionais não violentos e que demandam políticas sociais de inclusão, e não encarceramento.

Os principais pontos do projeto incluem:

  1. Vedação de atividades externas à internação para adolescentes condenados por crimes hediondos com violência grave, especialmente no ambiente escolar;
  2. Ampliação do tempo máximo de internação para cinco anos, com avaliações semestrais;
  3. Internação mínima de três anos e máxima de até dez anos, com avaliações anuais, para atos infracionais análogos a homicídio qualificado, estupro, latrocínio ou crimes violentos praticados no espaço escolar;
  4. Laudo técnico multidisciplinar obrigatório (com psicólogo, psiquiatra e assistente social) como condição para a desinternação;
  5. Exigência de comportamento exemplar durante a internação, com ausência de novos atos infracionais e cumprimento das metas do plano individualizado;
  6. Revogação do limite de idade de 21 anos para continuidade da medida de internação;
  7. Possibilidade de quebra de sigilo judicial e de dados do processo, mediante autorização judicial, quando houver repercussão pública relevante e interesse social.

O novo abaixo-assinado busca o apoio da população brasileira para transformar essa proposta em realidade. O objetivo, segundo os familiares, é honrar a memória de Melissa com uma mudança de impacto que previna novos crimes e promova justiça em casos extremos — sem comprometer os direitos dos adolescentes que devem ser protegidos e apoiados por políticas públicas.

A dor das testemunhas e a mobilização de pais e mães

O caso repercutiu ainda após a publicação de um vídeo nas redes sociais pelo músico Chaene da Gama, da banda Black Pantera. Pai de uma das testemunhas oculares do crime, Chaene descreveu com emoção e indignação o trauma vivido por sua filha, que viu a amiga ser assassinada a poucos metros de distância. Ele também questionou a sentença: “Depois de três anos, esses meninos sairão com a ficha limpa. E a Melissa? Quem vai trazê-la de volta?”

O artista alertou para a responsabilidade das famílias, pedindo que os pais estejam atentos aos celulares, redes sociais e comportamentos de seus filhos: “A primeira educação vem de casa. Esses meninos planejaram isso por dias. Ninguém percebeu.”

No dia seguinte, domingo, 22 de junho, o caso foi amplamente exibido em reportagem especial do programa Domingo Espetacular, da TV Record. A matéria trouxe novos detalhes sobre o crime, os desdobramentos do processo judicial e a mobilização da sociedade em torno do abaixo-assinado pela Lei Melissa Campos, além de entrevistas com familiares, especialistas e representantes da comunidade escolar. A exibição nacional do caso ampliou ainda mais a comoção pública e fortaleceu os apelos por mudanças legislativas urgentes frente à banalização da violência extrema no ambiente escolar.

Violência escolar, misoginia e ódio: um cenário alarmante

O assassinato de Melissa expôs, mais uma vez, a escalada de violência nas escolas brasileiras. Desde 2019, o país registrou 41 ataques consumados, com um aumento exponencial a partir de março de 2022. O ano de 2023 foi o mais violento da história: 12 atentados, 13 mortos e 43 feridos. Entre 2022 e 2024, foram 27 episódios, a maioria com motivação ligada ao ódio misógino, racismo ou ideologias extremistas difundidas online.

Paralelamente, dados da SaferNet Brasil revelam o avanço do ódio nas redes: a misoginia online cresceu 2.875% entre 2017 e 2022, saltando de 961 para 28.642 denúncias. A intolerância religiosa, o racismo e o neonazismo também apresentaram crescimento alarmante. Em 2023, mais de 105 mil postagens com ameaças a escolas foram identificadas. Até maio de 2025, outras 88 mil novas ameaças já haviam sido rastreadas.

O posicionamento da ComCausa: prevenir é tão essencial quanto punir

A ComCausa, organização com mais de 20 anos de atuação em territórios periféricos do Rio de Janeiro, manifestou sua solidariedade à família de Melissa Campos e apoio à tramitação da proposta. No entanto, reafirma que qualquer mudança legal deve ser fruto de um debate plural, ético, democrático e comprometido com a justiça social.

Para a Instituição, é essencial que o Brasil reaja a essa onda de violência com seriedade, mas sem repetir os erros históricos de criminalização da juventude negra e periférica. A resposta não pode ser apenas punitiva, mas estrutural e preventiva. A dor da família de Melissa deve se transformar em luta coletiva, mas essa luta precisa estar ancorada no compromisso com a vida, com os direitos e com a dignidade de todos e todas.

A ComCausa propõe que:

  • A motivação por ódio seja reconhecida legalmente como circunstância qualificadora nos crimes praticados por adolescentes;
  • As plataformas digitais sejam responsabilizadas por disseminar conteúdos de incitação à violência;
  • Sejam criadas políticas públicas de escuta e acolhimento nas escolas, especialmente voltadas à saúde mental e à prevenção de conflitos;
  • O debate sobre a “Lei Melissa Campos” seja conduzido com a participação de juristas, educadores, policiais, familiares de vítimas, psicólogos, jovens e movimentos sociais.

Assine: Abaixo-assinado e divulgaram publicamente a minuta da chamada Lei Melissa Campos.

Escalada da violência nas escolas brasileiras

O caso evidenciou, mais uma vez, o avanço de uma cultura de ódio que se infiltra nas redes sociais, nas escolas e no cotidiano da juventude. Desde 2019, o Brasil vem registrando uma escalada inédita de violência juvenil, com o ambiente escolar se tornando palco de ataques letais, quase sempre motivados por discursos de ódio — especialmente misoginia, racismo e ideologias extremistas propagadas virtualmente. Levantamento nacional aponta que entre 2019 e 2025 ocorreram 41 ataques consumados em escolas, sendo 64% desses a partir de março de 2022. O ano de 2023 foi o mais letal da série histórica: 12 ataques, 13 mortos e 43 feridos. De 2022 a 2024, foram 27 episódios entre massacres e tentativas, com vítimas predominantemente femininas ou negras.

A cultura de ódio que levou à morte de Melissa não nasceu sozinha. Ela foi cultivada pelo silêncio, pela negligência e pela ausência do Estado em proteger, educar e cuidar da juventude. Por isso, mais do que endurecer a lei, precisamos restaurar o valor da empatia, da escuta e da vida como princípios fundamentais de uma sociedade justa e segura.

Leia: O que provoca o aumento da violência nas escolas

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