A morte da menina Myrella Ramos de Sousa, de apenas 3 anos, após dois atendimentos sucessivos no Hospital Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, passou a ser alvo de apuração da Polícia Civil e da Secretaria Municipal de Saúde. O caso provocou forte comoção e levantou questionamentos sobre a conduta adotada no primeiro atendimento, a evolução clínica da criança e a eventual relação entre a medicação administrada e o agravamento do quadro. Família questiona alta inicial, aponta possível falha na assistência e cobra esclarecimentos; hospital diz que, até o momento, não identificou indícios de erro no atendimento
De acordo com documentos hospitalares analisados pela família e por apoiadores do caso, a criança deu entrada inicialmente na unidade com sintomas como vômito, febre, dor abdominal e diarreia. O atendimento ocorreu no dia 15 de março. Após avaliação, medicação intravenosa e um período de observação, a menina recebeu alta.
Segundo o relato da mãe, Tayssa Ramos, pouco tempo depois de deixar o hospital, o estado de saúde da filha piorou rapidamente. A criança teria ficado prostrada, sem reação adequada, o que levou ao retorno imediato à unidade. Na segunda entrada, o quadro já era descrito como grave. Ao longo da evolução, Myrella sofreu paradas cardiorrespiratórias e morreu na madrugada do dia seguinte.
“O médico não ouviu o coração dela, não fez nada, só passou simplesmente o remédio para ela e colocou ela no soro. Quando ela saiu do soro, eles viram que ela estava um pouquinho melhor, mas não deixou minha filha ali para poder ver se estava tudo bem com ela”, afirmou a mãe em relato divulgado pela imprensa. “Quando eu cheguei em casa com a minha filha, minha filha já estava mole e eu voltei correndo para o hospital”, acrescentou.
Documentos apontam alta inicial e posterior retorno em estado crítico
A documentação relacionada ao caso indica que, no primeiro atendimento, a hipótese clínica trabalhada foi de gastroenterite ou diarreia de origem infecciosa presumível. Também há registro de medicação venosa e de alta hospitalar ainda no mesmo dia. No entanto, os documentos da reentrada revelam uma mudança abrupta no estado clínico da criança. O retorno ao hospital ocorreu já em contexto de extrema gravidade, com classificação de risco máxima, rebaixamento do nível de consciência e necessidade de atendimento emergencial.
Nos registros médicos posteriores, aparecem referências a possível reação medicamentosa grave, inclusive com menção a reação extrapiramidal, deterioração neurológica, comprometimento respiratório e, ao fim, quadro compatível com choque grave. Também constam registros sobre tentativas de estabilização e suporte avançado. Outro ponto sensível levantado pelos documentos é a menção à dificuldade ou indisponibilidade de vaga em CTI pediátrico no curso da evolução clínica, elemento que pode se tornar central para a apuração sobre o desfecho.
Causa da morte ainda depende de laudo pericial
O corpo da criança foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML), responsável por apontar a causa da morte. O resultado do laudo é considerado peça-chave para esclarecer se houve relação direta entre o atendimento, a medicação, a evolução clínica e o óbito. A indefinição pericial é um dos elementos que tornam o caso ainda mais delicado. Até o momento, há relatos familiares, registros hospitalares e apurações preliminares em andamento, mas a conclusão oficial sobre a causa da morte ainda não foi divulgada.
Polícia Civil e Secretaria Municipal de Saúde já apuram o caso
A repercussão do caso fez com que a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro e a Secretaria Municipal de Saúde confirmassem a abertura de apuração. Segundo informações já divulgadas publicamente, a Polícia Civil solicitou documentos ao hospital, pretende ouvir testemunhas e realiza diligências para esclarecer as circunstâncias da morte da criança.
A Secretaria Municipal de Saúde informou que acompanha o caso e que a Comissão de Óbitos avalia a situação, enquanto aguarda o resultado do laudo do IML.
Hospital diz não ter identificado falha, mas aguarda definição da causa da morte
Em nota divulgada à imprensa, a direção do Hospital Cardoso Fontes afirmou que acompanha o caso desde o início e declarou que a criança foi atendida por dois pediatras experientes. Segundo a unidade, até o momento, não foi identificado qualquer indício de falha na assistência.
O hospital também declarou que o corpo foi encaminhado ao IML para definição da causa exata da morte e para esclarecimento sobre eventual alergia a medicamento ou a alguma substância ingerida.
A posição do hospital, no entanto, não encerra a controvérsia. Isso porque a família sustenta dúvidas sobre a qualidade e a suficiência do primeiro atendimento, enquanto os documentos e o laudo pericial ainda estão em fase de análise.
Família cobra verdade e responsabilização
Para os familiares, a principal demanda neste momento é por esclarecimento completo, transparência e responsabilização, caso sejam confirmadas falhas, omissões ou inadequações na assistência.
O caso também reacende um debate mais amplo sobre a segurança do atendimento pediátrico de urgência, o acompanhamento de crianças pequenas após medicação, a rastreabilidade da cadeia terapêutica e a disponibilidade de leitos intensivos em casos de rápida deterioração clínica.
A morte de Myrella não é tratada pela família como uma fatalidade simples. A sucessão entre atendimento inicial, alta, agravamento severo, retorno em estado crítico e óbito em poucas horas ampliou a pressão para que o caso seja investigado em todas as suas dimensões: médica, administrativa, sanitária e, se necessário, também judicial.
Caso mobiliza defesa de direitos e pode ganhar novas frentes de incidência
Diante da gravidade do episódio, o caso também passou a mobilizar atores da sociedade civil ligados à defesa da infância, dos direitos humanos e do direito à saúde. Entre eles está a ComCausa – Defesa da Vida, organização que recebeu o caso por encaminhamento de Mãe Ya Lúcia Yapondá e passou a sistematizar informações e documentos para apoiar o acompanhamento institucional da situação.
A avaliação de entidades de defesa de direitos é de que o caso não deve ser reduzido a uma mera intercorrência clínica, mas analisado com seriedade, preservação da prova e respeito ao direito da família à verdade.
Enquanto a investigação segue, a morte de uma criança de 3 anos dentro de um fluxo de atendimento hospitalar sucessivo permanece como um episódio de alta gravidade humana e institucional — e cuja resposta do poder público será decisiva para determinar se houve apenas uma evolução clínica trágica ou uma cadeia de falhas que poderia ter sido evitada.
Nota do hospital
“A direção do Hospital Cardoso Fontes informa que acompanha o caso desde o início. A criança foi atendida por dois médicos pediatras experientes e, até o momento, não foi identificado qualquer indício de falha na assistência. O caso está sendo monitorado pela Comissão de Óbitos da unidade e o corpo foi encaminhado para o IML, para definição da causa exata da morte e detalhamento se a alergia foi a algum medicamento ou a alguma substância ingerida”.
O que já se sabe
- A criança foi atendida inicialmente com quadro gastrointestinal e recebeu alta.
- Houve agravamento rápido após a saída do hospital.
- O retorno à unidade ocorreu em estado grave.
- A criança sofreu paradas cardiorrespiratórias e morreu.
- O caso é investigado pela Polícia Civil e pela Secretaria Municipal de Saúde.
- O laudo do IML ainda é aguardado.
- A família questiona a assistência prestada no primeiro atendimento.
- O hospital afirma que, até o momento, não identificou indício de falha.
Diante da gravidade do caso, o Programa ACOLHER, iniciativa vinculada à atuação do CRDH ComCausa – Defesa da Vida no campo do acolhimento, da orientação e da defesa de direitos humanos, está em interlocução com a mãe da menina e acompanhará institucionalmente os desdobramentos da apuração, prestando suporte no que couber à família, sistematizando informações e reforçando a incidência por verdade, transparência, responsabilização e garantia de que situações dessa natureza não sejam tratadas com silêncio, negligência ou indiferença institucional.
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