A história dos Mártires da Baixada é uma das memórias mais dolorosas e simbólicas de Duque de Caxias. Ela fala de violência, abandono, crueldade e impunidade, mas também de fé, organização popular, resistência comunitária e insistência da vida.
O principal narrador dessa história foi o Padre Luigi Costanzo Bruno, missionário italiano que dedicou grande parte de sua vida aos pobres, às comunidades e às lutas sociais da Baixada Fluminense. Foi ele quem preservou, organizou e transmitiu a memória da chacina ocorrida no Jardim Amapá.
Em 2007, Padre Bruno passou essa narração à ComCausa, permitindo que a história de Sebastião, Maria das Neves e suas filhas continuasse sendo contada não apenas como lembrança de um crime, mas como denúncia social e testemunho de resistência. A narrativa do padre transforma a tragédia em memória pública, fazendo com que aquelas vidas não sejam reduzidas a números ou esquecidas pelo tempo.
O crime que marcou o Jardim Amapá
Em 3 de maio de 1988, um crime brutal chocou o bairro Jardim Amapá, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Naquela noite, Sebastião Vidal dos Santos, sua esposa Maria das Neves Rodrigues dos Santos, que estava grávida, e suas três filhas — Elizete, de 5 anos, Elionete, de 7, e Eliete, de 9 — foram assassinados dentro da própria casa.
A crueldade do crime ultrapassou a morte da família. Os assassinos também mataram os pássaros que estavam em gaiolas e destruíram as flores que enfeitavam a casa. Nada que representasse vida foi poupado. O gesto parecia carregar uma mensagem de terror: apagar todos os sinais de alegria, beleza e esperança daquele lar.
A casa, que deveria ser espaço de proteção, família e futuro, tornou-se cenário de horror. O crime marcou profundamente os moradores do bairro e passou a ser lembrado também como a Chacina do Bairro Amapá.
Um território marcado pelo abandono
Para Padre Bruno, não era possível compreender a chacina sem olhar para o contexto do Jardim Amapá naquele período. O bairro era marcado pela pobreza, pela falta de infraestrutura, pela precariedade urbana e pela ausência do poder público.
O verão de 1988 foi de muito calor, mas também de fortes temporais. As chuvas alagaram vários pontos do Rio de Janeiro e atingiram duramente bairros pobres da Baixada Fluminense. No Jardim Amapá, a estrada de acesso ficou alagada por mais de duas semanas. Segundo o relato de Padre Bruno, moradores, estudantes e trabalhadores precisavam caminhar mais de três quilômetros pela lama, sobre diques improvisados ou por áreas alagadas que chegavam a quase um metro e meio de altura.
Essa realidade revela a condição de abandono vivida por muitas comunidades periféricas. O Jardim Amapá era um retrato da exclusão: ruas precárias, ausência de saneamento, dificuldade de acesso, pouca presença do Estado e forte vulnerabilidade diante da violência.
Baixada Fluminense, violência e exclusão
A Baixada Fluminense, naquele período, vivia sob forte marca da violência. Em muitos territórios, a presença do Estado era frágil ou quase inexistente. A população pobre convivia com medo, descaso, grupos armados, interesses políticos locais e práticas de extermínio.
Padre Bruno via a chacina da família de Sebastião e Maria das Neves como parte dessa realidade maior. Para ele, não se tratava apenas de um crime isolado. Era expressão de uma estrutura social que permitia que os pobres fossem abandonados, ameaçados, mortos e depois esquecidos.
O crime revelava uma lógica cruel: quando a vítima era pobre, periférica e moradora de uma região invisibilizada, a comoção pública durava pouco. A imprensa noticiava por um dia, as autoridades faziam o mínimo e logo tudo parecia voltar à rotina. Mas, para a comunidade, nada voltava ao normal.
Maria das Neves: uma mãe cheia de sonhos
Poucas semanas antes da chacina, em 19 de março de 1988, Padre Bruno realizava uma celebração de penitência comunitária e individual na capela de Nossa Senhora da Conceição. Naquele dia, Maria das Neves procurou o padre para conversar.
Ela era mãe de três crianças da catequese e estava grávida. Falou de sua vida familiar, da casa que estava construindo com o marido Sebastião e do sonho de viajar ao Nordeste para rever seus pais depois do nascimento do filho que esperava.
Padre Bruno guardou aquela conversa com carinho e dor. Para ele, Maria das Neves era uma mulher simples, pobre, feliz e cheia de sonhos bonitos. Era uma mãe que se preparava para celebrar a Páscoa com esperança. Essa lembrança tornou a tragédia ainda mais profunda, porque a violência interrompeu não apenas uma vida, mas uma família inteira e um futuro que estava sendo construído.
A noite de morte
Na noite de 3 de maio de 1988, exatamente um mês depois da Páscoa, os sonhos de Maria das Neves foram interrompidos por mãos assassinas. A casa da família foi invadida por um grupo de homens.
Maria tentou pedir socorro, mas foi agredida e assassinada no quarto em construção, espaço que já estava preparado para receber a laje no fim de semana seguinte. Os assassinos usaram contra ela uma tesoura, instrumento de trabalho com o qual ajudava no sustento da casa.
O crime contra Maria das Neves foi também um ataque à maternidade, ao trabalho, à esperança e ao futuro. Ela carregava uma criança no ventre e carregava também o sonho de uma vida melhor para sua família.
As crianças silenciadas
No único quarto onde a família vivia, as três meninas — Elizete, Elionete e Eliete — também foram violentadas e mortas. Eram crianças pequenas, ligadas à catequese, conhecidas pela comunidade e lembradas pelas vozes que alegravam as manhãs do bairro.
Sebastião, imobilizado, foi obrigado a assistir ao sofrimento da esposa e das filhas antes de também ser assassinado. A violência teve um caráter de terror. Não se tratava apenas de matar, mas de humilhar, destruir e impor medo a toda a vizinhança.
A morte das meninas se tornou uma das marcas mais dolorosas da memória dos Mártires da Baixada. Por isso, mais tarde, suas faces seriam representadas aos pés da imagem de Nossa Senhora, para que nunca fossem esquecidas.

O possível motivo do crime
Segundo a narrativa preservada por Padre Bruno, o crime teria sido motivado por vingança. Sebastião teria se recusado a permitir que traficantes utilizassem seu pequeno bar como ponto de venda de drogas. Ele também teria denunciado a situação à polícia.
Essa atitude teria provocado a ira dos criminosos. A chacina, então, teria sido uma forma de punição e intimidação. Matando Sebastião e sua família, os assassinos tentavam espalhar uma mensagem ao bairro: quem resistisse ao domínio criminoso poderia pagar com a própria vida.
Outras memórias locais registram versões diferentes sobre a motivação, o que exige cuidado histórico. Mas o ponto central permanece: a família foi assassinada em um contexto de medo, violência territorial e ausência de justiça.
O silêncio da manhã seguinte
Na manhã seguinte, o silêncio chamou a atenção dos vizinhos. As vozes das crianças, que costumavam alegrar as manhãs do Jardim Amapá, não foram ouvidas.
Uma vizinha se aproximou da casa e descobriu a tragédia. A notícia se espalhou rapidamente pelo bairro. O medo tomou conta da comunidade. Segundo Padre Bruno, a morte parecia ter se espalhado por todo o lugar.
Aquela manhã marcou uma ruptura. O bairro já convivia com dificuldades, abandono e insegurança, mas a brutalidade contra uma família inteira atingiu a comunidade de forma profunda. A dor não era apenas dos parentes ou dos vizinhos mais próximos. Era uma ferida coletiva.
O descaso das autoridades
A polícia esteve no local. A perícia também. Mas, segundo a narrativa de Padre Bruno, a resposta das autoridades foi fria e burocrática.
O descaso teria sido tão grande que a tesoura usada no assassinato de Maria das Neves sequer foi recolhida pela perícia. O objeto permaneceu na casa, como símbolo da negligência diante da vida dos pobres.
A notícia chegou à imprensa, mas por pouco tempo. Logo, como acontecia com tantos crimes na Baixada Fluminense, parecia destinada a desaparecer. Para muitos, seria apenas mais uma ocorrência policial. Para a comunidade, porém, aquelas mortes tinham nome, rosto e história.

A morte como estatística
Padre Bruno denunciava a naturalização da morte na Baixada. Em uma região marcada por altos índices de homicídio e pela ação de grupos violentos, muitas vítimas eram transformadas apenas em estatísticas.
O assassinato de Sebastião, Maria das Neves e suas filhas poderia ter seguido esse caminho: virar número, virar notícia antiga, virar silêncio. Mas a comunidade não aceitou essa lógica.
Para Padre Bruno, esquecer seria permitir que a morte vencesse duas vezes: primeiro, pela violência física; depois, pelo apagamento da memória. Por isso, era preciso transformar o luto em compromisso.
A inquietação de Padre Bruno
Depois do crime, Padre Bruno passou diante da casa onde tudo havia acontecido. Ele contou que, ao olhar aquele lugar, sentiu-se profundamente questionado em sua fé.
A pergunta que o incomodava era clara: o que fazer diante de tanta crueldade? Como responder, como comunidade cristã e popular, a uma violência tão extrema? A casa não poderia permanecer apenas como cenário do horror. Era preciso que, do sangue dos mártires, nascesse algum sinal de vida.
Essa inquietação foi partilhada com moradores e lideranças locais, entre eles Dona Odete, Sr. João, Dona Sílvia, Dona Georgina, Sr. Gilberto e integrantes das comunidades Santa Rita e Nossa Senhora da Conceição.
Quando a dor se transforma em organização
A dor da comunidade começou a ser discutida coletivamente. O medo ainda era grande, mas havia também indignação. Padre Bruno e os moradores compreenderam que era preciso fazer memória pública das vítimas.
Foi nesse processo que nasceu a ideia de uma celebração ecumênica chamada Clamor dos Mártires, marcada para 5 de junho de 1988. A preparação reuniu representantes das igrejas da região e a Associação de Moradores.
Mesmo com o medo que ainda dominava muitas pessoas, a celebração aconteceu. Ela foi um gesto de coragem. A comunidade saiu do silêncio e afirmou publicamente que aquelas mortes não seriam esquecidas.
O Clamor dos Mártires
O Clamor dos Mártires tornou-se um marco na memória comunitária. A celebração ecumênica reuniu fé, denúncia e solidariedade. Não era apenas uma cerimônia religiosa. Era um ato público contra a violência, contra o medo e contra a naturalização da morte.
A partir da chacina, Padre Bruno ajudou a inspirar iniciativas de memória e mobilização, como o próprio Clamor dos Mártires e a Romaria da Fé. Esses espaços ajudaram a manter viva a lembrança das vítimas e a fortalecer a luta por dignidade humana na Baixada.
O Clamor mostrava que a comunidade não estava disposta a deixar a morte vencer. Mesmo ferida, ela se reunia para rezar, denunciar e reconstruir.
A ideia de comprar a casa
Com o passar do tempo, surgiu uma proposta ainda mais concreta: comprar a casa onde a chacina havia acontecido e transformá-la em espaço comunitário.
A ideia era profundamente simbólica. O lugar que os assassinos tentaram marcar como território da morte passaria a ser território de vida. A casa do medo se tornaria casa de oração. O espaço do massacre se tornaria lugar de memória, encontro e formação.
Dona Odete assumiu a tarefa de procurar informações sobre a compra do imóvel. A comunidade começou a amadurecer a decisão de não abandonar aquele lugar ao esquecimento.
A compra pela Diocese
No início de outubro de 1989, o então bispo da Diocese de Duque de Caxias, Dom Mauro Morelli, providenciou a compra da casa onde Sebastião, Maria das Neves e suas filhas haviam sido assassinados.
No Natal daquele mesmo ano, a casa foi inaugurada como Comunidade Nossa Senhora dos Mártires da Baixada.
A data também tinha força simbólica. No Natal, celebra-se o nascimento de Cristo. Naquele Natal de 1989, a comunidade celebrava também o nascimento de um novo espaço de fé, memória e resistência no mesmo lugar onde a morte havia tentado se impor.
A casa da morte torna-se casa da vida
A transformação da casa tinha um sentido espiritual e político. O quarto onde aconteceu parte do martírio foi preservado como espaço sagrado, tornando-se Capela do Santíssimo.
A casa não foi demolida para apagar a lembrança. Ao contrário: foi ressignificada. Aquilo que era sinal de terror passou a ser sinal de compromisso. O local do massacre tornou-se lugar de oração, encontro e reconstrução comunitária.
A comunidade compreendeu que a memória não deveria paralisar as pessoas na dor. Ela deveria impulsionar a luta pela vida.
O galho que atravessou a parede
Um dos momentos mais fortes da narrativa de Padre Bruno ocorreu quando os moradores entraram na casa, fechada por mais de um ano. O primeiro a entrar foi o Sr. João, marido de Dona Odete.
O ambiente ainda guardava sinais do horror. O estrado da cama permanecia encostado na parede. A tesoura usada no crime ainda estava no mesmo lugar, ignorada pela perícia policial.
Mas, no meio daquele cenário de morte, havia algo inesperado: um galho de uma planta, arrancada e pisoteada pelos assassinos, havia atravessado a parede e brotado dentro do quarto escuro, quente, seco e sem ventilação.
O sinal da vida
Para Padre Bruno, aquele galho não era apenas uma curiosidade. Era um sinal. A planta havia resistido durante um ano e cinco meses à escuridão, à falta de ar, ao calor e à escassez de água.
Era como se a vida estivesse esperando a comunidade chegar. Segundo a interpretação do padre, aquela planta entregava uma missão: continuar testemunhando a vida naquele lugar.
Os moradores tentaram cuidar dela, mas a planta acabou secando. Ainda assim, para Padre Bruno, ela já havia cumprido sua missão. Ela havia mostrado que, mesmo onde tentaram apagar todos os sinais de vida, a vida ainda podia atravessar paredes.
As plantas como memória
Depois daquele episódio, as plantas passaram a ter um significado especial para a comunidade. Elas eram sinais de vida e também parte da memória do martírio, pois até as flores da casa haviam sido destruídas pelos assassinos.
Cuidar das plantas tornou-se uma forma de cuidar da memória. Era uma maneira simples e profunda de afirmar que a vida deveria continuar sendo protegida.
A planta que atravessou a parede tornou-se uma das imagens mais fortes da história dos Mártires da Baixada: a vida vencendo a morte, não de forma abstrata, mas concreta, visível, nascendo no meio do abandono.
A primeira missa na nova comunidade
No Natal de 1989, foi celebrada uma missa campal debaixo da mangueira atrás da antiga casa da família. Ali era inaugurada a nova casa da comunidade.
As obras haviam começado em outubro daquele ano. O Sr. João, marido de Dona Odete, ajudou a completar a construção que Sebastião e Maria das Neves planejavam em vida.
Esse detalhe é muito importante: a obra interrompida pela violência foi retomada pela comunidade. O sonho privado daquela família tornou-se compromisso coletivo. A casa que deveria abrigar Sebastião, Maria das Neves e suas crianças passou a acolher uma comunidade inteira.
O crescimento da comunidade
Com o passar dos anos, o espaço cresceu. Em 1993, foi comprado o terreno ao lado. Em 1994, começou a ser preparado o Centro de Formação.
Com o apoio de Dom Mauro Morelli e da Diocese de Fossano, na Itália, novos lotes foram adquiridos e foram construídos espaços para retiros, encontros e atividades pastorais.
A Comunidade Nossa Senhora dos Mártires tornou-se, aos poucos, um centro de espiritualidade, formação e organização. O lugar que nasceu da dor passou a acolher encontros, celebrações, reflexões e atividades voltadas à vida comunitária.
De Comunidade dos Mártires a Nossa Senhora dos Mártires
Inicialmente, a comunidade foi chamada de Comunidade dos Mártires da Baixada. Com o tempo, porém, algumas pessoas demonstraram dificuldade com o nome. Para elas, a palavra “mártires” lembrava apenas a morte.
Padre Bruno compreendeu esse incômodo. A intenção da comunidade não era ficar presa à lembrança do horror, mas afirmar a vida que renasceu daquele lugar. Por isso, aceitou-se uma sugestão nascida do povo, e o nome passou a ser Comunidade Nossa Senhora dos Mártires.
A mudança não apagou a memória das vítimas. Ao contrário, deu a ela uma dimensão espiritual ainda mais forte, unindo a dor dos mártires à devoção popular.
A imagem de Nossa Senhora e as crianças
Padre Bruno adaptou a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe para o santuário. Mais tarde, quando a imagem foi pintada na igreja, foram colocadas aos seus pés as faces das três crianças assassinadas.
Assim, Elizete, Elionete e Eliete permaneceram presentes na espiritualidade da comunidade. Elas não foram lembradas apenas como vítimas, mas como parte da identidade daquele lugar.
A imagem passou a unir fé mariana, memória dos inocentes e denúncia da violência contra os pobres. Aos pés de Nossa Senhora, as crianças continuam lembrando à comunidade que nenhuma vida deve ser esquecida.
Dom Mauro Morelli e a construção da igreja
Segundo Padre Bruno, Dom Mauro Morelli sempre teve carinho especial pela Comunidade Nossa Senhora dos Mártires. Sempre que podia, participava das celebrações e incentivava o crescimento do espaço.
Foi Dom Mauro quem também estimulou a construção de uma igreja maior. Além de incentivar, ajudou concretamente na busca de recursos. Em 1998, teve início a construção do novo templo. Em 17 de julho de 1999, a nova igreja foi inaugurada.
A construção da igreja representou mais um passo na transformação daquele território. A casa do massacre deu lugar a um santuário de memória, fé e vida comunitária.
Um memorial contra o esquecimento
A memória da família permanece viva no espaço da comunidade. Registros comunitários indicam que a igreja mantém um memorial sobre Sebastião, Maria das Neves e suas filhas, além de pinturas que recordam as crianças assassinadas.
Também há referência à realização anual de missa no dia 3 de maio, data da chacina, em homenagem aos Mártires da Baixada.
Esse memorial tem uma função importante: impedir que o tempo apague os nomes, os rostos e as histórias das vítimas. Ele lembra que a violência não atingiu números abstratos, mas uma família concreta, com sonhos, afetos, fé e projetos.
A impunidade como ferida aberta
As memórias locais também apontam para a impunidade em torno do crime. Não foram encontradas, em fontes públicas consultadas, informações judiciais confiáveis que confirmem a identificação, julgamento ou condenação dos responsáveis.
Por isso, é importante tratar o tema com rigor: a narrativa de Padre Bruno aponta uma possível motivação ligada à resistência de Sebastião contra o uso de seu bar pelo tráfico. Outras versões locais circularam, mas nenhuma delas muda a dimensão central da história: uma família inteira foi exterminada, e a resposta institucional foi insuficiente.
A impunidade prolonga a violência. Quando um crime brutal não recebe resposta adequada, a comunidade sente que a vida dos pobres vale menos para o sistema de justiça.
Padre Bruno como guardião da memória
Padre Bruno não foi apenas o narrador da chacina. Ele foi um guardião da memória dos Mártires da Baixada.
Sua atuação ajudou a transformar uma tragédia local em símbolo de resistência. Ele não permitiu que o crime fosse esquecido. Ao narrar a história, celebrar a memória dos mortos e organizar a comunidade, ajudou a construir uma resposta coletiva à violência.
Em sua visão, lembrar os mártires não significava cultivar tristeza. Significava assumir responsabilidade. A memória deveria gerar compromisso com os pobres, com a justiça, com a defesa da vida e com a denúncia das estruturas de morte.
A atuação de Padre Bruno na Baixada
Padre Luigi Costanzo Bruno foi uma presença marcante na Baixada Fluminense. Sua trajetória esteve ligada às comunidades eclesiais de base, às pastorais sociais, à juventude, à organização popular e à defesa dos empobrecidos.
Ele atuou em tempos de forte violência política e social, denunciando a ação de grupos de extermínio e se posicionando ao lado das comunidades abandonadas.
Sua missão não se restringia ao altar. Padre Bruno caminhava com o povo, ouvia suas dores, participava de suas lutas e ajudava a transformar fé em compromisso social.
Clamor, Romaria e resistência popular
A partir da chacina do Jardim Amapá, a memória dos Mártires da Baixada se conectou a iniciativas maiores de mobilização popular, como o Clamor dos Mártires e a Romaria da Fé.
Essas experiências tinham um sentido profundo: unir espiritualidade e denúncia. A fé não era usada para conformar os pobres diante da injustiça, mas para fortalecê-los na luta por dignidade.
As celebrações, caminhadas e encontros ajudavam a lembrar as vítimas da violência e a denunciar as estruturas que produziam morte na Baixada.
A morte de Padre Bruno
Padre Bruno faleceu em 8 de novembro de 2022, na Itália, aos 80 anos. Sua morte foi profundamente sentida por comunidades da Baixada Fluminense, especialmente aquelas ligadas à sua caminhada pastoral.
Entre as comunidades mais associadas à sua trajetória estão Santa Rita de Cássia, no Amapá, e Nossa Senhora dos Mártires, que foi uma de suas grandes paixões pastorais.
Sua partida não encerrou sua presença. Pelo contrário, sua memória continua viva nas comunidades, nas celebrações, nos relatos e nos espaços que ajudou a construir.
A homenagem da Estrada Padre Bruno
Em 2025, a memória de Padre Bruno recebeu uma homenagem pública importante. A antiga Estrada do Amapá, em Duque de Caxias, passou a se chamar Estrada Padre Bruno.
A homenagem reconhece sua entrega à evangelização, à defesa dos direitos humanos e à luta contra as injustiças sociais na Baixada Fluminense.
A mudança do nome da estrada é simbólica. Padre Bruno, que caminhou com o povo da região, passou a ter seu nome marcado em uma via ligada ao território onde tanto atuou. A estrada torna-se, assim, também um caminho de memória.
A Biblioteca Comunitária Padre Bruno
A memória de Padre Bruno também permanece viva na Biblioteca Comunitária da Comunidade Nossa Senhora dos Mártires, que leva seu nome.
Esse detalhe é significativo. A biblioteca representa formação, leitura, educação e futuro. Dar a ela o nome de Padre Bruno é reconhecer que sua missão continua na educação popular, no acesso ao conhecimento e na construção de consciência comunitária.
A biblioteca prolonga aquilo que ele defendia: uma fé ligada à vida concreta, à formação das pessoas e à transformação social.
Por que essa história continua atual
A história dos Mártires da Baixada continua atual porque muitos dos problemas presentes em 1988 ainda atingem territórios periféricos: saneamento precário, abandono urbano, falta de políticas públicas, violência armada, medo, desigualdade e invisibilidade.
Contar essa história é também denunciar que a violência não nasce do nada. Ela cresce onde o Estado se ausenta, onde a pobreza é naturalizada, onde os direitos são negados e onde a vida dos pobres é tratada como descartável.
Por isso, lembrar Sebastião, Maria das Neves, Elizete, Elionete e Eliete é também cobrar justiça social para a Baixada de hoje.
A Baixada para além da morte
Padre Bruno sempre ajudou a mostrar que a Baixada não pode ser definida apenas pela violência. A mesma terra marcada por chacinas, abandono e medo também é terra de resistência, solidariedade, organização popular, fé e luta.
A Baixada é formada por comunidades que se levantam, mães que lutam por seus filhos, lideranças que defendem direitos, pastorais que acolhem, movimentos sociais que denunciam e moradores que insistem em construir vida mesmo em meio às dificuldades.
A história dos Mártires da Baixada revela essa força. O crime tentou transformar o Jardim Amapá em território do medo. A comunidade respondeu transformando o local em território de memória.
Memória como compromisso
A narrativa transmitida por Padre Bruno à ComCausa em 2007 ensina que memória não é apenas recordar o passado. Memória é compromisso.
Lembrar os Mártires da Baixada é impedir que a violência seja normalizada. É devolver nome e rosto às vítimas. É denunciar o abandono que produz tragédias. É afirmar que nenhuma vida pobre deve ser tratada como descartável.
A memória também educa as novas gerações. Quem conhece a história de seu território compreende melhor suas dores, suas lutas e sua dignidade.
A casa, a planta e o santuário
A casa onde os assassinos tentaram apagar todos os sinais de vida tornou-se igreja, centro de formação e santuário de memória.
A planta que atravessou a parede tornou-se símbolo. As crianças, antes silenciadas pela violência, passaram a ser lembradas nas celebrações, nas pinturas e na imagem de Nossa Senhora. A dor da comunidade tornou-se compromisso público.
Esse é o centro da história: a morte não teve a última palavra.
Conclusão: a vida insistiu em florescer
Por isso, a história dos Mártires da Baixada precisa ser contada e recontada. Não para alimentar o horror, mas para impedir o esquecimento. Não para reduzir a família à tragédia, mas para afirmar sua dignidade. Não para dizer que a Baixada é lugar de morte, mas para mostrar que, mesmo diante da morte, seu povo insiste em viver.
Onde os assassinos destruíram as flores, uma planta atravessou a parede.
Onde tentaram impor silêncio, nasceu uma celebração.
Onde quiseram deixar medo, surgiu uma comunidade.
Onde houve massacre, ergueu-se um santuário.
Onde tentaram decretar morte, a vida respondeu.
A Baixada não é território de esquecimento. É território de memória, resistência e insistência da vida.
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