Dom Adriano Mandarino Hypólito nasceu em 18 de janeiro de 1918, em Sergipe, com o nome de batismo Fernando. Ingressou na vida franciscana e adotou o nome Adriano. Foi ordenado sacerdote em Salvador, em 18 de outubro de 1942, e, em 1966, assumiu a Diocese de Nova Iguaçu, onde construiria uma trajetória profundamente ligada à história social e política da Baixada Fluminense.
À frente da Diocese, Dom Adriano aproximou a ação pastoral das condições concretas vividas pela população: pobreza, precariedade habitacional, falta de saneamento, dificuldades de transporte e acesso a serviços públicos, violência e perseguição política. Sua atuação contribuiu para fazer da Igreja local um espaço de articulação comunitária, formação de lideranças e defesa dos direitos humanos.
A experiência da Diocese de Nova Iguaçu naquele período também estava relacionada às transformações da Igreja Católica latino-americana posteriores ao Concílio Vaticano II e à Conferência de Medellín, de 1968. Pesquisa acadêmica publicada recentemente destaca que a Diocese, sob sua liderança, ganhou forte presença junto às classes populares e, justamente por isso, passou a ser observada e perseguida por setores ligados ao aparato repressivo e à violência política local.
Dom Adriano acolheu pessoas perseguidas pela ditadura e articulou diferentes lideranças e movimentos dos bairros onde a Igreja estava presente. Sua atuação o transformou em alvo de ameaças e campanhas que procuravam associar a defesa dos pobres e dos direitos humanos ao comunismo.
Sequestro, tortura e atentados
O episódio mais brutal ocorreu na noite de 22 de setembro de 1976. Ao sair da Cúria Diocesana, Dom Adriano foi sequestrado por homens armados. Foi encapuzado, espancado, despido e teve o corpo pintado com tinta vermelha. Depois, foi abandonado em Jacarepaguá. Seu automóvel foi levado até as proximidades da sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na Glória, no Rio de Janeiro, onde foi destruído por uma explosão. O episódio está documentado no acervo histórico da Diocese preservado pela UFRRJ.
A violência não terminou ali.
Em 1977, ataques atingiram também a estrutura pastoral da Diocese. O próprio acervo histórico da Diocese preserva um conjunto documental específico intitulado Notícias sobre atentados à pastoral da Diocese de Nova Iguaçu, referente àquele ano.
Em 1979, a escalada de intimidação ganhou novos capítulos, incluindo pichações contra Dom Adriano e a Igreja. O acervo histórico registra conjuntamente documentos sobre o sequestro do bispo, pichações em igrejas e outros atentados ocorridos naquele período.
O ataque mais grave aconteceu em 20 de dezembro de 1979, quando uma bomba explodiu sob o altar da Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, em Nova Iguaçu. A documentação original referente ao atentado e às manifestações recebidas por Dom Adriano encontra-se hoje preservada no Repositório de Múltiplos Acervos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
A violência contra a Diocese não pode ser compreendida apenas como uma sucessão de ataques contra um religioso. Ela ocorreu em um contexto no qual a atuação pastoral se confrontava com estruturas de violência política e social da Baixada Fluminense. Estudos recentes sobre a Diocese destacam, inclusive, a perseguição proveniente de setores repressivos locais e a presença dos chamados esquadrões da morte nesse ambiente.
A luta continuou depois da ditadura
A redemocratização não encerrou a atuação pública de Dom Adriano. Ele continuou denunciando a violência na Baixada Fluminense e questionando a ideia de que as vítimas dos esquadrões da morte poderiam ser reduzidas ao rótulo de “marginais”. Sua defesa dos direitos humanos abrangia também aquilo que considerava indispensável à dignidade da população: moradia, trabalho, transporte, saneamento, saúde, organização comunitária e participação social.
Em 1993, Dom Adriano participou da criação do Centro dos Direitos Humanos de Nova Iguaçu (CDH), instituição que deu continuidade ao trabalho desenvolvido anteriormente pela Comissão de Justiça e Paz. O Centro permanece em atividade e constitui hoje uma das expressões institucionais mais importantes desse legado.
Com o encerramento de seu período à frente da Diocese, Dom Adriano passou a dedicar-se de maneira ainda mais direta à defesa dos direitos humanos e à Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos e da Cidadania, mantendo também colaboração com a pastoral diocesana.
Dom Adriano faleceu em 10 de agosto de 1996, aos 78 anos.
moção póstuma em homenagem a Dom Adriano Hypólito à Pastoral da Juventude
Em 2017, a ComCausa – Defesa da Vida realizou uma homenagem à memória de Dom Adriano Hypólito, uma das principais referências históricas da defesa dos direitos humanos e das lutas sociais na Baixada Fluminense. A instituição entregou uma moção póstuma em reconhecimento à trajetória e ao legado do religioso à Pastoral da Juventude (PJ) da Diocese de Nova Iguaçu.
A entrega ocorreu durante o Curso de Dinâmicas para Líderes (CDL), realizado em Japeri, reunindo jovens e lideranças ligadas à Pastoral da Juventude. A escolha daquele espaço para a homenagem reforçou a relação entre a memória de Dom Adriano e a formação de novas gerações comprometidas com a participação comunitária, a cidadania e a defesa da vida.
Na ocasião, Alexandre Paiva e Adriano Dias representaram a ComCausa. A homenagem foi recebida por João Oscar e Arthur Oliveira, então coordenadores diocesanos da Pastoral da Juventude da Diocese de Nova Iguaçu.
A entrega da moção também representou o reconhecimento da ComCausa à importância histórica da própria Diocese de Nova Iguaçu e de suas pastorais na organização popular da Baixada Fluminense. Durante seu episcopado, Dom Adriano incentivou a formação de lideranças, a organização das comunidades e uma presença da Igreja comprometida com os problemas concretos enfrentados pela população.
Realizar essa homenagem em uma atividade destinada justamente à formação de jovens lideranças deu ao ato um significado especial: mais do que recordar o passado, significava transmitir uma memória de resistência às novas gerações.
Para a ComCausa, preservar a trajetória de Dom Adriano é também preservar parte fundamental da história dos direitos humanos na Baixada Fluminense. Sua atuação ao lado das comunidades, sua resistência diante da violência e da perseguição e seu compromisso com os mais pobres permanecem como referências para aqueles que trabalham pela construção de uma sociedade baseada na dignidade humana e na defesa da vida.
Um legado que permanece
Dom Adriano foi chamado de comunista por seus perseguidores. Mais preciso, porém, é compreender sua atuação a partir da concepção cristã que orientava sua ação pastoral: a defesa da dignidade humana, a opção pelos pobres e a compreensão de que a Igreja não poderia permanecer indiferente diante da violência, da desigualdade e da negação de direitos.
Sua trajetória transformou-se em uma referência da história dos direitos humanos na Baixada Fluminense. Os próprios documentos produzidos durante a repressão — cartas, manifestações de solidariedade, notícias sobre seu sequestro e registros dos atentados — formam hoje o Dossiê Dom Adriano Mandarino Hypólito, preservado no acervo da UFRRJ.
Em 18 de janeiro de 2026, completaram-se 108 anos de seu nascimento. E neste 10 de agosto de 2026, completam-se exatamente 30 anos de sua morte. A coincidência da data torna este momento especialmente significativo para recuperar sua história e recolocar seu legado no debate público da Baixada Fluminense.
Para a ComCausa – Defesa da Vida, Dom Adriano permanece como uma referência de persistência, compromisso e defesa intransigente da dignidade humana: um símbolo de uma Igreja presente no território e de uma concepção de direitos humanos construída ao lado daqueles que mais sofrem com a violência e a desigualdade.
Portal Dom Adriano
Por ocasião do centenário de nascimento de Dom Adriano, em 2018, a ComCausa colocou no ar um memorial digital dedicado à preservação de sua história e de seu legado. A iniciativa pretende constituir um espaço permanente de memória, documentação, educação em direitos humanos e preservação da história social da Baixada Fluminense, reunindo fotografias, documentos, vídeos, depoimentos, referências bibliográficas, registros históricos e materiais relacionados à trajetória de Dom Adriano e às lutas sociais das quais participou.
Linha do Tempo
Dom Adriano Hypólito: resistência, perseguição e memória
A trajetória de Dom Adriano Hypólito se confunde com a história da defesa dos direitos humanos na Baixada Fluminense. Durante a ditadura militar, sua atuação ao lado das comunidades populares fez dele alvo de ameaças, perseguições e atentados.
Documentos históricos preservados pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) permitem hoje reconstruir parte dessa história.
1966
Dom Adriano assume a Diocese de Nova Iguaçu
Dom Adriano Hypólito assume a Diocese de Nova Iguaçu em 1966. Sua atuação pastoral passa a estabelecer uma forte relação entre a Igreja, as comunidades populares e a defesa da dignidade humana.
Ao longo dos anos seguintes, a Diocese torna-se importante espaço de formação de lideranças, organização comunitária e defesa dos direitos humanos na Baixada Fluminense.
22 de setembro de 1976
O sequestro de Dom Adriano
Um dos episódios mais violentos da perseguição contra Dom Adriano ocorreu em setembro de 1976.
Ao sair da Cúria Diocesana, o bispo foi sequestrado por homens armados. Foi encapuzado, espancado, despido e teve o corpo pintado de vermelho.
Depois das agressões, foi abandonado em Jacarepaguá.
Seu automóvel foi levado para as proximidades da sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na Glória, no Rio de Janeiro, onde foi destruído por uma explosão.
O acervo histórico preservado pela UFRRJ reúne documentos e manifestações recebidas após o atentado.
VER DOCUMENTOS SOBRE O SEQUESTRO
1976–1977
O Brasil toma conhecimento do atentado
O sequestro teve ampla repercussão.
Jornais do Rio de Janeiro acompanharam o crime e seus desdobramentos, transformando a violência sofrida por Dom Adriano em um episódio de repercussão pública.
O arquivo histórico preserva parte significativa dessa cobertura jornalística.
1976
Repercussão nacional
A violência contra Dom Adriano ultrapassou as fronteiras da Baixada Fluminense.
Jornais, revistas e outras publicações de diferentes regiões do país registraram o episódio.
Esses documentos ajudam a compreender a dimensão política alcançada pelo atentado.
VER REPERCUSSÃO NA IMPRENSA NACIONAL
1976
Uma rede de solidariedade
Depois do sequestro, Dom Adriano e a Diocese receberam manifestações de solidariedade provenientes de diferentes regiões do Brasil.
Cartas, mensagens, ofícios e documentos demonstram que o ataque provocou reação muito além de Nova Iguaçu.
A violência contra um bispo da Baixada transformava-se também em denúncia contra a repressão.
VER MENSAGENS DE SOLIDARIEDADE
1977
Os ataques continuam
O sequestro não encerrou a perseguição.
A Diocese de Nova Iguaçu e suas estruturas pastorais continuaram sofrendo ameaças, intimidações, pichações, depredações e outros ataques.
A violência procurava atingir não apenas Dom Adriano, mas também a organização social e pastoral construída ao redor da Diocese.
VER DOCUMENTOS SOBRE OS ATENTADOS
1976–1979
A denúncia atravessa fronteiras
A perseguição sofrida por Dom Adriano ganhou também repercussão internacional.
Mensagens provenientes do exterior registram solidariedade diante do sequestro, dos atentados e da violência contra a Diocese de Nova Iguaçu.
1979
Igrejas são marcadas pela intolerância
A perseguição política continuava.
Em novembro de 1979, a Catedral de Santo Antônio de Jacutinga e a igreja do bairro da Prata amanheceram com pichações que procuravam associar a Diocese e Dom Adriano ao comunismo.
A tentativa de criminalizar sua atuação religiosa e social fazia parte de um ambiente mais amplo de intimidação.
20 de dezembro de 1979
Uma bomba explode na Catedral
Poucos dias antes do Natal, a violência atingiu o coração da Diocese.
Uma bomba explodiu na Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, em Nova Iguaçu.
O atentado tornou-se um dos episódios mais simbólicos da perseguição sofrida pela Diocese durante aquele período.
Documentos, correspondências e manifestações relacionadas ao ataque estão preservados no acervo histórico.
VER DOCUMENTOS SOBRE O ATENTADO À CATEDRAL
Anos 1980
A democracia chega. A luta continua.
O fim da ditadura não significou o encerramento da missão pública de Dom Adriano.
Na Baixada Fluminense, continuavam presentes a violência, os grupos de extermínio, a pobreza e a ausência de direitos fundamentais.
Dom Adriano permaneceu defendendo a investigação das mortes, a responsabilização dos autores da violência e direitos essenciais como moradia, transporte, trabalho, saneamento e saúde.
1993
Centro dos Direitos Humanos de Nova Iguaçu
A defesa dos direitos humanos ganha uma estrutura permanente com a criação do Centro dos Direitos Humanos de Nova Iguaçu.
A iniciativa dá continuidade à experiência construída anteriormente pela Comissão de Justiça e Paz e ajuda a preservar institucionalmente uma das dimensões fundamentais do legado de Dom Adriano.
Década de 1990
A memória pelas fotografias
Além de documentos escritos, parte da trajetória de Dom Adriano está preservada em fotografias.
O acervo reúne registros de celebrações, encontros, atividades da Diocese e diferentes momentos de sua vida.
10 de agosto de 1996
Morre o Apóstolo da Baixada
Dom Adriano Hypólito faleceu aos 78 anos.
Terminava sua presença física entre as comunidades da Baixada, mas não a influência de sua trajetória.
Sua memória permaneceu vinculada à luta pela dignidade humana, à organização popular e a uma Igreja comprometida com aqueles que mais sofriam com a desigualdade e a violência.
2017
ComCausa entrega moção póstuma a Dom Adriano
Em 2017, a ComCausa – Defesa da Vida realizou uma homenagem à memória de Dom Adriano durante o Curso de Dinâmicas para Líderes (CDL), realizado em Japeri.
A ComCausa foi representada por Alexandre Paiva e Adriano Dias, que entregaram uma moção póstuma em homenagem a Dom Adriano à Pastoral da Juventude da Diocese de Nova Iguaçu.
A homenagem foi recebida por João Oscar e Arthur Oliveira, então coordenadores diocesanos da Pastoral da Juventude.
A realização da homenagem durante uma atividade de formação de jovens lideranças simbolizou a transmissão do legado de Dom Adriano às novas gerações.
2018
100 anos de Dom Adriano
No centenário de nascimento de Dom Adriano, a ComCausa desenvolveu um memorial digital dedicado à preservação de sua trajetória.
Era o início de uma iniciativa destinada a reunir memória, documentos e referências sobre um dos personagens fundamentais da história dos direitos humanos na Baixada Fluminense.
2026
30 anos sem Dom Adriano
50 anos do sequestro
O ano de 2026 reúne duas datas históricas.
10 de agosto de 2026: 30 anos da morte de Dom Adriano.
22 de setembro de 2026: 50 anos de seu sequestro.
Mais do que efemérides, as datas representam uma oportunidade para recuperar documentos, ouvir testemunhas e apresentar às novas gerações uma história fundamental da Baixada Fluminense.
É nesse contexto que a ComCausa retoma o Portal Dom Adriano, integrado às iniciativas de memória e cultura de direitos da instituição.
Explore o acervo histórico
O Dossiê Dom Adriano Mandarino Hypólito, preservado pelo Centro de Documentação e Imagem da UFRRJ, reúne documentos relacionados ao episcopado, ao sequestro, aos atentados, às manifestações de solidariedade e a outros momentos dessa história.
ACESSAR O DOSSIÊ COMPLETO NA UFRRJ
Fonte documental: Centro de Documentação e Imagem da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – Dossiê Dom Adriano Mandarino Hypólito.
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