No Dia da Visibilidade Trans, dossiê da ANTRA alerta que a queda numérica não significa segurança; tentativas de assassinato, falhas de registro e medo de denunciar mantêm parte da violência fora do sistema. ComCausa destaca projeto com apoio do UNFPA-ONU para prevenção contínua e fortalecimento de redes no território.

Há um ponto que precisa ser dito com todas as letras no Dia da Visibilidade Trans: nem toda violência aparece nas estatísticas — e isso distorce a leitura do problema. Quando um dado chega ao público como “número oficial”, ele parece completo, fechado, incontestável. Mas a realidade é mais dura: existe uma camada inteira de violência transfóbica que não vira ocorrência, não vira investigação e, portanto, não vira política pública.

O dossiê mais recente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) aponta exatamente esse paradoxo: mesmo quando há redução numérica, o cenário segue adverso, com aumento de tentativas de assassinato e ausência de políticas públicas efetivas. O alerta é decisivo porque a violência transfóbica não se resume ao caso extremo que vira manchete. Ela é, antes, um processo social, uma escalada silenciosa e cotidiana.

A escalada que quase nunca entra no boletim

A transfobia se acumula como rotina: ameaça, perseguição, humilhação pública, agressão, expulsão familiar, evasão escolar, precarização do trabalho, abordagem hostil em serviços, constrangimento em unidades públicas, medo de circular. Só que grande parte dessa escalada não entra no boletim. E, quando entra, muitas vezes aparece “mal classificada”.

Há casos em que a identidade de gênero não é respeitada ou sequer registrada. Há ocorrências em que a motivação de ódio não é apontada. Há situações em que a pessoa evita denunciar por medo de revitimização, por receio de exposição ou por descrença na resposta institucional. O resultado é um retrato incompleto: o que aparece é só uma fração do que acontece.

Por que o subregistro é uma forma de violência

Subregistro não é só falha técnica. Ele produz efeitos sociais concretos e cumulativos:

1. Reduz a pressão institucional
Se não vira dado, não vira prioridade. Se não vira prioridade, não vira orçamento, protocolo, treinamento e meta. Sem meta, não há cobrança. Sem cobrança, o problema “some”.

2. Aumenta a impunidade
A violência “sem nome” tende a ser tratada como caso genérico. E casos genéricos morrem no fluxo: não geram investigação qualificada, não produzem responsabilização e não interrompem a repetição.

3. Produz silêncio coletivo
Quando denunciar não dá retorno, a comunidade aprende a “não ir”, “não insistir”, “não se expor”. Esse aprendizado é social: ele se espalha pelo boca a boca, pela experiência compartilhada, pela sensação de que buscar ajuda pode piorar a situação.

Por isso, quando a ANTRA recomenda combater a impunidade e a subnotificação e instituir normativas para coleta de dados sobre violências, tentativas de homicídio, assassinatos e violações contra travestis e pessoas trans, não se trata de burocracia. Trata-se de vida, proteção e possibilidade real de resposta do Estado.

Rio e Baixada: o território piora o custo de denunciar

No Rio de Janeiro e, especialmente, em cidades da Baixada Fluminense, o custo de denunciar pode ser maior por fatores territoriais: precarização urbana, trajetos longos, baixa presença de serviços especializados, circulação com risco, histórico de violência comunitária e medo de exposição.

Isso cria uma equação perversa: a pessoa trans sofre violência, avalia que denunciar pode gerar revitimização (ou risco) e, no fim, a ocorrência não entra no sistema. É aí que o subregistro deixa de ser “número pequeno” e se torna mecanismo de produção de vulnerabilidade. Não é apenas “falta de dado”. É falta de proteção.

Quando a gente olha para os números, precisa lembrar que existe uma camada inteira de violência que não aparece. Muito caso fica no subregistro: por medo de denunciar, por atendimento que revitimiza, por registro mal feito. E o que não vira dado não vira política. Na Baixada, isso é uma condenação cotidiana ao silêncio.

ONU, ComCausa e desdobramentos: prevenção contínua para romper a engrenagem do silêncio

Diante dessa realidade, a ComCausa reforça que enfrentar a transfobia não pode ser só reação ao crime consumado. É necessário atuar no que antecede: a cultura da humilhação, a intimidação cotidiana e os padrões que naturalizam a violência.

É nesse ponto que entra o projeto Masculinidades Positivas pela Defesa da Vida, estruturado pela ComCausa com apoio institucional do UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas/ONU). O núcleo nasce para enfrentar, de forma preventiva e educativa, a naturalização da violência e os padrões de masculinidade que alimentam coerção, controle e agressividade — fatores que também operam como combustível para a transfobia no cotidiano.

A proposta combina comunicação pública permanente, mobilização territorial, rodas de conversa, articulação em rede e aproximação com serviços e parceiros locais. Em termos práticos, isso significa disputar o ambiente onde o subregistro se produz: quando a violência é normalizada, a denúncia diminui. Quando a denúncia diminui, a política pública não se movimenta. E, quando a política pública não se movimenta, a violência escala.

Visibilidade é também política de proteção

No Dia da Visibilidade Trans, falar de subregistro é falar do que está escondido. É reconhecer que as estatísticas, sozinhas, não dão conta. É afirmar que o Estado precisa registrar melhor, acolher melhor e agir melhor. E é reconhecer que, enquanto isso não acontece com a força necessária, iniciativas comunitárias e projetos permanentes de prevenção — como os que a ComCausa fortalece com apoio do UNFPA-ONU — seguem sendo parte essencial da proteção e da dignidade no território.

ComCausa – Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida

ComCausa – Defesa da Vida, com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU), estrutura o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida como um caminho comunitário: rodas de conversa orientadas, pactos de convivência, ferramentas práticas de maturidade emocional e mobilização pública para transformar autocontrole em proteção real, dentro e fora de casa.

Este artigo integra o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, estruturado pela ComCausa – Defesa da Vida com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU). A proposta enfrenta padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas: autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado.

Parceria UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU):

UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU) ComCausa Masculinidades

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