Novo documentário dirigido por Bruno Maia resgata a memória de uma das maiores lideranças negras do século XVIII e mostra como o apagamento histórico ainda repercute na vida das comunidades quilombolas mineiras.

Durante muito tempo, a história de Minas Gerais foi narrada a partir de seus ciclos econômicos, das vilas coloniais, das disputas pelo ouro e dos movimentos políticos conduzidos pelas elites. No entanto, por trás dessa narrativa oficial, existe uma outra história: a das populações negras que resistiram à escravidão, construíram territórios autônomos e desafiaram diretamente o poder colonial. É nesse campo de memória e disputa que emerge a figura de Rei Ambrósio, liderança quilombola ligada aos quilombos do Campo Grande.

Essa trajetória é o centro do documentário “Ambrósio, rei do Campo Grande: o rei esquecido de uma história roubada que ainda ecoa”, dirigido pelo músico mineiro Bruno Maia e produzido pela Braia Produções. Lançado oficialmente em 26 de abril de 2026, o filme é resultado de mais de uma década de pesquisa e busca apresentar ao público uma liderança negra que, apesar de sua importância histórica, permaneceu praticamente apagada da memória oficial de Minas Gerais.

A proposta do documentário não é apenas contar a história de um personagem esquecido. A obra coloca em discussão um problema mais profundo: quem escreve a história, quais vozes são reconhecidas como legítimas e quais experiências são silenciadas ao longo do tempo. No caso de Ambrósio, esse apagamento atinge não apenas um nome, mas toda uma rede de resistência quilombola que marcou a formação do território mineiro.

Uma liderança negra contra o poder colonial

Ambrósio é apresentado no filme como uma liderança quilombola do século XVIII, associada aos quilombos do Campo Grande. Segundo as informações reunidas pelo projeto, ele teria mobilizado milhares de pessoas, enfrentado a Coroa portuguesa e se tornado uma referência de organização e resistência negra em Minas Gerais.

O Campo Grande abrangia uma vasta região, que ia da Serra da Mantiqueira ao oeste de Minas, alcançando também parte do Triângulo Mineiro. Nessa área, comunidades negras constituíram espaços de refúgio, mas também de produção, sociabilidade, cultura, defesa e autonomia. Os quilombos, portanto, não eram apenas esconderijos de pessoas escravizadas em fuga. Eram territórios organizados, com formas próprias de vida e resistência.

Ao recuperar essa dimensão, o documentário contribui para deslocar a imagem tradicional dos quilombos como espaços marginais. Em vez disso, apresenta essas comunidades como parte central da história brasileira, capazes de confrontar o sistema escravista e criar alternativas concretas à ordem colonial.

Uma história soterrada

O diretor Bruno Maia conta que o interesse pelo tema surgiu há cerca de 15 anos, quando teve contato com a obra do pesquisador Tarcísio José Martins. A leitura o deixou, segundo ele, ao mesmo tempo encantado pela força de Ambrósio e perplexo com o silenciamento imposto à sua memória.

Esse silenciamento é um dos eixos do documentário. A obra mostra que a história de Ambrósio foi sendo soterrada justamente porque contrariava a versão dominante sobre a formação de Minas Gerais. Entre a Guerra dos Emboabas e a Inconfidência Mineira, há um período pouco explorado no ensino tradicional. É nesse intervalo que se insere a atuação de Ambrósio e dos quilombos do Campo Grande, revelando uma história de resistência negra que raramente recebeu o mesmo destaque dado aos conflitos protagonizados pelas elites coloniais.

O apagamento também se explica pela forma como a história oficial foi construída. Durante séculos, documentos produzidos por autoridades coloniais tiveram mais valor do que memórias orais, tradições populares, marcas territoriais e saberes comunitários. O documentário questiona essa hierarquia e propõe uma escuta mais ampla, capaz de reconhecer outras formas de preservação da memória.

Territórios que guardam a memória

A produção percorreu cidades ligadas à trajetória de Ambrósio e aos quilombos do Campo Grande, como Cristais, Ibiá, Lavras, São João del-Rei, Prados e Formiga. As gravações reuniram documentos, mapas antigos, obras de referência e depoimentos de pesquisadores e moradores.

Entre os locais mais simbólicos está Cristais, cidade apontada pelo material do projeto como relacionada à antiga Povoação do Ambrósio. Antes da formação do município, aquela região teria sido ocupada por comunidades ligadas ao Quilombo do Ambrósio. A exibição do filme em Cristais teve forte valor simbólico, com presença de representantes da Irmandade do Rosário, de Congadas, autoridades e moradores.

Outro ponto de memória é o Morro das Balas, em Formiga. O local é descrito como um espaço de resistência ligado à história do Quilombo do Ambrósio. Tombado como Patrimônio Histórico Municipal de Formiga em 2012, o morro preserva ruínas e marcas simbólicas que ajudam a manter viva a lembrança da luta contra a escravidão em Minas Gerais.

Esses territórios mostram que a história de Ambrósio não está presa apenas aos arquivos. Ela permanece inscrita na paisagem, nos nomes dos lugares, nas tradições religiosas e culturais, nos monumentos e na memória das comunidades.

O papel da pesquisa histórica

A recuperação da trajetória de Ambrósio está diretamente ligada ao trabalho do pesquisador Tarcísio José Martins, reconhecido pelo projeto como uma das principais referências sobre os quilombos do Campo Grande e a história quilombola mineira. Sua obra “Quilombo do Campo Grande: a história de Minas que se devolve ao povo” é considerada fundamental para o ressurgimento da figura de Ambrósio nas últimas décadas.

Além do livro, Tarcísio mantém um acervo de artigos, pesquisas e materiais sobre a história quilombola em Minas Gerais. O documentário parte desse legado, mas o traduz para uma linguagem audiovisual, ampliando o acesso do público a uma discussão que por muito tempo ficou restrita a círculos de pesquisa.

A escolha pelo cinema, nesse sentido, tem força política e educativa. Ao combinar imagem, música, depoimentos e território, a obra transforma a pesquisa histórica em experiência sensível. O espectador não apenas recebe informações: é convidado a rever a própria forma de compreender Minas Gerais.

O passado que continua no presente

Embora trate de acontecimentos do século XVIII, o documentário estabelece uma relação direta com o presente. Durante a pesquisa, Bruno Maia destaca ter se surpreendido com a situação das comunidades quilombolas em Minas Gerais. Segundo ele, o estado tem a quarta maior população quilombola do país, mas 99% dessa população vive em terras não tituladas. Para o diretor, essa invisibilidade jurídica e social é um dos ecos do apagamento histórico de Ambrósio.

Essa conexão é uma das partes mais importantes da obra. O filme mostra que apagar uma liderança quilombola do passado não é apenas uma violência simbólica. Esse apagamento ajuda a sustentar desigualdades atuais, como a falta de reconhecimento territorial, o racismo estrutural e a permanência de conflitos no campo.

Ao apresentar Ambrósio às novas gerações, o documentário também provoca uma pergunta sobre o Brasil contemporâneo: quantas outras histórias foram silenciadas para que a versão oficial parecesse completa?

Arte como reparação

A música tem papel importante no filme. A trilha sonora conta com a participação do violeiro e historiador Ivan Vilela, além de composições autorais inspiradas na figura de Ambrósio. Em Varginha, uma das exibições foi acompanhada por apresentação musical da trilha, incluindo a canção “No Breu do Sertão, no Escondido”.

Para Bruno Maia, a arte pode ser instrumento de denúncia, reparação histórica e difusão do conhecimento. O diretor defende que Ambrósio seja estudado nas escolas, para que jovens conheçam essa liderança e para que descendentes dos quilombolas do Campo Grande possam se reconhecer nessa história.

O próprio percurso do filme confirma essa vocação educativa. Além das exibições, o projeto realizou debates, oficinas e atividades culturais em diferentes cidades mineiras. Em Cristais, por exemplo, houve uma oficina para estudantes da rede pública ministrada pelo diretor de fotografia Leonardo Dias.

Acessibilidade e memória para todos

O projeto também se destaca pelo compromisso com a acessibilidade. O filme está disponível no site oficial e no YouTube, com recursos como Libras, legendas, audiodescrição e versão em inglês. A página reúne ainda materiais complementares, documentos, artigos e conteúdos multimídia sobre os quilombos do Campo Grande e temas relacionados.

Essa escolha amplia o alcance da obra e reforça uma ideia central: a memória histórica deve ser pública, acessível e compartilhada. Se o apagamento de Ambrósio ocorreu em parte pela exclusão de determinadas vozes, sua retomada exige justamente o contrário — abertura, circulação e participação.

Uma história que volta a ocupar seu lugar

“Ambrósio, rei do Campo Grande” é mais do que um documentário sobre o passado. É uma intervenção na forma como Minas Gerais e o Brasil contam a própria história. Ao recuperar a trajetória de uma liderança quilombola apagada, o filme questiona a memória oficial e mostra que a resistência negra foi parte essencial da formação do país.

A força da obra está em revelar que Ambrósio não desapareceu completamente. Sua memória sobreviveu nos territórios, nas pesquisas, nas comunidades, nos nomes, nas ruínas, nas tradições culturais e agora também no cinema.

Ao trazer essa história para o presente, o documentário contribui para um processo de reparação simbólica. Ele devolve visibilidade a uma liderança negra, reconhece a importância dos quilombos do Campo Grande e convida o público a olhar para Minas Gerais para além dos marcos coloniais tradicionais.

No fim, a história de Rei Ambrósio mostra que o silêncio também é uma construção histórica. Mas mostra, sobretudo, que a memória resiste. Mesmo roubada, soterrada ou ignorada, ela continua ecoando — até encontrar quem esteja disposto a escutá-la.

Exibições no Rio

A ComCausa vai articular exibições do documentário no Rio de Janeiro, contribuindo para ampliar a circulação da obra e levar a história de Rei Ambrósio e dos quilombos do Campo Grande a novos públicos. A iniciativa reforça o compromisso da organização com a valorização da memória afro-brasileira, a promoção dos direitos humanos e o reconhecimento de histórias que foram silenciadas, mas que seguem fundamentais para compreender o Brasil.

Sia no instagram @ambrosio.reidocampogrande e veja o site da produção ReiAmbrosio.com.br e da BraiaProducoes.com.br

Veja completo:

Foto de capa divulgação

Leia também

ComCausa se credencia com o Cine + ComCausa para a Difusão da 15ª Mostra Cinema e Direitos Humanos

Fale conosco! | Nos conheça

Projeto Comunicando ComCausa

Portal C3 | Instagram

______________________

Comunicando ComCausa Pêmio Periferia Viva Ministério Cidades 2025

______________________

Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

Pix ComCausa

______________________

Compartilhe: