O Dia Estadual de Saúde nas Favelas teve nesta terça-feira, 10 de fevereiro, seu ponto central no Museu de Favela (MUF), no Complexo Cantagalo, Pavão e Pavãozinho, no Rio de Janeiro. Organizações dos territórios participaram de um encontro de escuta, troca de experiências e construção coletiva, dentro da programação coordenada pelo Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, iniciativa vinculada à Fiocruz que reúne organizações sociais, universidades e coletivos comunitários em diferentes regiões do estado, segundo os organizadores.
Mais do que uma agenda simbólica, o encontro funcionou como recado político: uma saúde que se diz universal não pode existir como promessa abstrata, distante do território onde a vida acontece. A avaliação compartilhada no evento foi que, sem reconhecer as formas de cuidado que já sustentam as favelas, o Estado tende a repetir um modelo que chega tarde, fragmentado e sem vínculo com a realidade concreta.
A mobilização também retomou uma ideia que vem ganhando força no debate público: o cuidado nas favelas já ocorre de forma coletiva e cotidiana e precisa ser tratado como parte estruturante da saúde pública — não como exceção. Para participantes, essas redes operam como proteção social e sanitária em tempo real, articulando solidariedade e respostas imediatas diante das desigualdades.
Cuidado que vira política
Ao reunir organizações para compartilhar práticas e definir prioridades, o encontro reforçou que saúde não se limita a serviços formais. O que está em disputa, segundo as falas no MUF, é o reposicionamento do território: as práticas sociais que garantem continuidade, acolhimento e sobrevivência precisam orientar planejamento, investimento e organização do SUS.
A ComCausa esteve presente e foi representada por Adriano Dias. Ele resumiu o sentido do encontro: “Quando a favela fala de cuidado, ela fala de sobrevivência e de política pública ao mesmo tempo. O que a gente faz no território é saúde em movimento, mas isso precisa ser reconhecido, apoiado e integrado às políticas do Estado.”
A discussão apontou que dar visibilidade às redes de cuidado não é só reconhecimento simbólico. É condição material para entrar no planejamento, orientar orçamento e virar prioridade contínua. “O que não aparece, não conta. E o que não conta, não recebe investimento. Por isso a gente insiste: dar visibilidade é proteger a vida”, afirmou Adriano, no encontro.
Nesse contexto, participantes citaram a importância de ferramentas de mapeamento das práticas de cuidado como forma de evidenciar quem cuida, onde o cuidado acontece e quais são os vazios de política pública no entorno. “Quando você mapeia o cuidado, você prova que ele existe, mostra como ele funciona e revela onde o Estado está ausente. Isso muda a conversa: deixa de ser opinião e vira evidência”, disse.
Outro ponto repetido nas falas foi o alerta contra a ideia de que cuidado comunitário deve depender de “boa vontade” permanente. Para Adriano, rede precisa de condições, formação, apoio e integração. Caso contrário, o território fica preso à lógica da emergência, sempre “apagando incêndio”.
Ao reafirmar que políticas de cuidado nas favelas produzem saúde para todas as pessoas, o Dia Estadual deslocou o olhar tradicional sobre esses territórios. Em vez de reduzir favelas à “carência”, as organizações defenderam reconhecê-las como produtoras de saber, tecnologia social e soluções coletivas. A síntese do encontro foi que fortalecer essas redes é, ao mesmo tempo, justiça social e estratégia de saúde pública: quando o cuidado territorial é reconhecido e integrado, a resposta do sistema melhora para a cidade inteira.
ComuniSaúde e o impacto nas favelas
O ComuniSaúde é uma iniciativa que difunde o direito à saúde e valoriza o Sistema Único de Saúde (SUS) e seus profissionais, fortalecendo redes comunitárias em favelas e periferias por meio de ações formativas, comunicação cidadã e articulações locais que ampliam o acesso ao atendimento básico, à saúde mental e a campanhas educativas. O projeto atua como ponte entre moradores e serviços públicos, oferecendo também um canal telefônico para orientação, mediação de conflitos e cobrança junto aos órgãos competentes sempre que houver negativa ou omissão no atendimento.
ComCausa ComuniSaúde Baixada: 21 96942-1505 e acesse: comunisaude.org.br
Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro
Desde 2021, mais de R$ 22 milhões foram investidos em projetos de saúde nas favelas cariocas, com apoio da Lei Nº 8.972/20 e do Fundo Especial da ALERJ. Instituições renomadas como a Fiocruz , IFF, UENF, UFRJ, UERJ, PUCRJ, SBPC, Alerj e Abrasco fazem parte do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, com o objetivo de garantir que os serviços de saúde alcancem as áreas mais necessitadas.
Essa articulação interinstitucional é fundamental para reduzir desigualdades históricas e promover o acesso universal à saúde como um direito humano básico e inalienável.
Imagem de capa ilustrativa.
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