O Brasil carrega em sua formação social um dos mosaicos religiosos mais complexos e vibrantes do mundo. Essa diversidade é fruto de séculos de encontros, tensões e resistências, desde a chegada dos colonizadores portugueses, a diáspora africana, a presença milenar dos povos indígenas e as ondas de imigração europeia, árabe e asiática que marcaram os séculos XIX e XX.
O Censo 2022 do IBGE evidencia esse cenário: o catolicismo, que já foi quase absoluto na sociedade brasileira, reúne hoje 56,7% da população; as igrejas evangélicas cresceram de maneira acelerada e já representam 26,9% dos fiéis; enquanto o grupo dos “sem religião” chega a 9,3% — sendo que, dentro desse segmento, muitos se identificam como ateus, agnósticos ou espiritualistas não vinculados. Além desses blocos majoritários, milhões de pessoas seguem tradições afro-brasileiras, espíritas, orientais, islâmicas, judaicas, indígenas e novos movimentos sincréticos, compondo uma verdadeira cartografia da fé.
Cristianismo: hegemonia em mudança
A história do cristianismo no Brasil é inseparável da colonização. O catolicismo foi a religião oficial até a Constituição de 1891, quando ocorreu a separação entre Igreja e Estado. Hoje, embora ainda majoritário, o catolicismo perdeu espaço. Em 1872, no primeiro recenseamento do Império, mais de 99% da população se declarava católica. Já em 2010, o índice havia caído para 64,6% e, em 2022, chegou a 56,7%.
O crescimento evangélico é o dado mais marcante da virada religiosa contemporânea. Em 1980, apenas 6,6% dos brasileiros se declaravam evangélicos; em 2000, esse número chegou a 15,4%; em 2010, saltou para 22,2%; e, em 2022, já alcança 26,9%. As projeções do próprio IBGE indicam que, em menos de 15 anos, evangélicos e católicos devem se equilibrar numericamente. Esse crescimento é puxado principalmente pelas igrejas pentecostais e neopentecostais, como a Assembleia de Deus, a Universal do Reino de Deus, a Mundial do Poder de Deus e a Igreja Internacional da Graça.
Esse avanço é visível sobretudo em periferias urbanas do Sudeste, Nordeste e Norte, onde os templos evangélicos proliferam como espaços de acolhimento espiritual e comunitário. Nas regiões Sul e Centro-Oeste, o protestantismo histórico (batistas, presbiterianos, luteranos, metodistas) ainda conserva presença relevante, ligada em parte às colônias de imigração alemã e ao enraizamento comunitário dessas igrejas.
Religiões de matriz africana: fé, resistência e perseguição
O Brasil é o país com maior população negra fora da África, e a presença das tradições afro-brasileiras molda sua identidade espiritual. O candomblé e a umbanda são expressões religiosas reconhecidas como patrimônios culturais imateriais, mas também alvo de uma das formas mais persistentes de intolerância no país: o racismo religioso.
Estados como Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, Alagoas, São Paulo e Rio Grande do Sul concentram o maior número de terreiros, mas a diversidade vai além: o Tambor de Mina (MA/PA), o Xangô (PE/AL), o Batuque (RS), a Jurema Sagrada (Nordeste) e práticas híbridas como o Omolokô e o Candomblé de Caboclo revelam o pluralismo dessas tradições.
Apesar do reconhecimento oficial, os dados revelam um quadro alarmante. O Disque 100, canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos, registrou em 2024 mais de 2,4 mil queixas de intolerância religiosa, um aumento de 66,8% em relação a 2023. Quase 40% dessas ocorrências tiveram origem no estado do Rio de Janeiro, e a maioria dos alvos foram comunidades de matriz africana.
No Rio de Janeiro, o Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ) contabilizou em 2023 quase 3 mil ocorrências criminais relacionadas a intolerância religiosa, com 34 casos tipificados como ultraje a culto religioso. Em 2024, os registros subiram para 39 ultrajes e 33 ocorrências formalmente identificadas como intolerância religiosa. A distribuição intraurbana é reveladora: 21 casos na Zona Norte e 15 na Zona Oeste, áreas marcadas por vulnerabilidade social e pela presença de grupos armados.
Na Baixada Fluminense, a situação é ainda mais grave. Relatórios de organizações de direitos humanos apontam que Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Belford Roxo, Queimados e São João de Meriti estão entre os municípios com mais episódios de perseguição. Houve terreiros incendiados em Belford Roxo, casas de axé depredadas em Nova Iguaçu, ameaças diretas a sacerdotes em Caxias e crianças constrangidas em escolas públicas de Queimados por usarem guias religiosas.
A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (DECRADI-RJ) já havia apontado, em 2019, que cerca de 200 casas de axé foram atacadas somente na capital e região metropolitana. Esse histórico comprova que não se trata de fenômeno isolado, mas estrutural, e que se reproduz há décadas.
Povos indígenas e espiritualidade originária
Mais de 300 povos indígenas brasileiros mantêm suas práticas espirituais vivas, baseadas na relação com a natureza, no culto aos ancestrais e na coletividade. Do xamanismo amazônico às práticas de rezas e benzimentos no Nordeste, essas tradições resistem apesar de séculos de perseguição e tentativas de catequização forçada.
As práticas indígenas são especialmente fortes no Norte (Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Acre) e no Centro-Oeste (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul), mas também estão presentes em territórios do Maranhão, Bahia e Nordeste. A pajelança e os rituais coletivos representam não apenas espiritualidade, mas também resistência cultural e afirmação identitária, fundamentais para a luta contemporânea dos povos originários pela terra e pela preservação ambiental.
Novos movimentos religiosos brasileiros
O Brasil também produziu religiões próprias, nascidas de processos de sincretismo e resistência. As religiões ayahuasqueiras — como o Santo Daime, a União do Vegetal e a Barquinha — nasceram na Amazônia e hoje têm templos em todo o país, especialmente em capitais do Sudeste e Sul.
O espiritismo kardecista, de origem francesa, encontrou no Brasil terreno fértil: segundo o IBGE, somos o país com o maior número de espíritas do mundo, com destaque para São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. Os centros espíritas atuam tanto na dimensão espiritual quanto em atividades de caridade, reforçando seu papel social.
Tradições orientais, judaicas e islâmicas
A imigração japonesa do início do século XX trouxe o budismo, a Seicho-No-Ie, a Igreja Messiânica Mundial, a Perfect Liberty e o Tenrikyō, hoje concentrados principalmente em São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul.
O hinduísmo e as filosofias indianas chegaram por meio de missionários, escolas de yoga e movimentos devocionais como os Hare Krishna (ISKCON) e a Brahma Kumaris, hoje presentes em capitais do Sudeste e Sul.
O islamismo teve presença desde os muçulmanos escravizados, mas foi reforçado com a imigração árabe no século XX. Comunidades significativas estão em São Paulo, Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Curitiba, Campo Grande e Manaus.
O judaísmo, introduzido por imigrantes sefarditas e, mais tarde, por judeus asquenazes, mantém comunidades históricas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba, com sinagogas ortodoxas, conservadoras e reformistas.
Há ainda pequenos núcleos da fé Bahá’í, do sikhismo, do jainismo e do zoroastrismo, sobretudo em São Paulo e Rio de Janeiro.
Espiritualidades contemporâneas
Movimentos esotéricos e espiritualistas como a Rosa-Cruz (AMORC), a Teosofia, a Antroposofia, a Gnose e a Eubiose possuem grupos ativos no país. O Vale do Amanhecer, fundado em Planaltina (DF), é exemplo de tradição sincrética tipicamente brasileira, reunindo milhares de seguidores. Práticas neopagãs e wiccanas também vêm ganhando espaço, sobretudo em grandes capitais e entre os jovens.
Diversidade como patrimônio
Esse amplo quadro mostra que a religiosidade brasileira não pode ser reduzida a números: é também cultura, identidade e resistência. Cada procissão, cada xirê, cada romaria, cada celebração indígena traduz mais do que fé: é a expressão de um povo que transforma espiritualidade em ato político, em resistência cultural e em afirmação de cidadania.
Reconhecer a pluralidade religiosa como patrimônio imaterial é fundamental para combater a intolerância e o racismo religioso, mas também para fortalecer a democracia. Afinal, a diversidade da fé no Brasil é uma de suas maiores riquezas: um espelho da história, da dor e da esperança de milhões de pessoas que, a cada dia, reafirmam que nenhuma tradição deve ser silenciada.
A leitura política da ComCausa
Para a ComCausa Defesa da Vida, defender as religiões de matriz africana significa enfrentar diretamente o racismo estrutural que atravessa a sociedade. Não se trata apenas de garantir formalmente o direito ao culto, mas de assegurar que nenhum terreiro seja fechado pela violência, nenhuma criança seja humilhada por sua fé e nenhuma tradição seja silenciada pelo preconceito. É urgente que o poder público implemente políticas de proteção a templos e comunidades de axé, com protocolos de segurança intersetoriais, ações educativas em escolas e investigações céleres que responsabilizem os agressores.
Semana ComCausa pela Liberdade Religiosa
A ComCausa Defesa da Vida inicia, realiza esta Semana ComCausa pela Liberdade Religiosa, um movimento de sete dias dedicado a partilhar reflexões históricas, apresentar dados e mobilizar a sociedade em favor do respeito à diversidade de crenças. De forma simples e comprometida, buscamos contribuir para a conscientização e convidar todas as pessoas a se unirem à 18ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, que acontecerá no próximo domingo (21/09), na Praia de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro.
Reconhecida como um dos maiores atos públicos do país em prol do respeito à pluralidade de fé, a Caminhada, organizada pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) e pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), chega à sua 18ª edição com o lema “Pelos meus, pelos seus, pelos nossos, eu vou!”. O evento reúne lideranças religiosas de diferentes tradições, militantes de direitos humanos, artistas, educadores, coletivos culturais e representantes do poder público
Ao longo da semana, serão publicadas matérias especiais, que estarão disponíveis no Portal C3 e na Rede DH da ComCausa, além de conteúdos exclusivos nas redes sociais da instituição, ampliando o alcance da mobilização e convidando toda a sociedade a participar desta caminhada coletiva em defesa da liberdade religiosa.
Serviço
Evento: 18ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa
Data: Domingo, 21 de setembro de 2025
Horário: 10h às 17h
Concentração: Posto 5 (Avenida Atlântica, em frente aos números 3.628 e 3.604, esquina com a Rua Sá Ferreira)
Saída: 13h
Encerramento: Praça do Lido, Posto 2
Estrutura: Trios elétricos, tenda, banheiros químicos, aguadeiros, ambulâncias, carrinhos elétricos e posto de verificação de pressão arterial
Imagem de capa ilustrativa
Leia também
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