Desaparecidos: o drama invisível que corrói o Brasil e explode na Baixada Fluminense

Compartilhe este post: Share on X (Twitter) Share on Facebook Share on Pinterest Share on LinkedIn Share on Email Share on WhatsAppNo Brasil, o desaparecimento de pessoas deixou de ser uma exceção trágica para se tornar um fenômeno estruturante da violência com tendência de alta após a pandemia e fortes assimetrias regionais. Na Baixada Fluminense, essa realidade ganha contornos ainda mais duros: disputas entre facções e milícias, alta letalidade policial e falhas de governança de dados alimentam uma engrenagem de ocultação que transforma rios em valas, bairros em corredores de desova e famílias em investigadoras do próprio luto. Ao mesmo tempo, a categoria de “mortes a esclarecer” e a subnotificação borram o retrato estatístico, mascarando homicídios e atrasando respostas do Estado. Introduzir o tema, portanto, é reconhecer que investigar desaparecidos é também investigar homicídios, exigir padronização de protocolos, integrar bases e proteger quem busca — porque, antes de números, há nomes, histórias e direitos que não podem desaparecer. O Brasil voltou a aumentar o número de registros de pessoas desaparecidas Em 2024, as Polícias Civis contabilizaram 81.873 ocorrências — uma média de quatro notificações por hora —, o maior patamar desde 2018. Depois da queda nos anos mais duros da pandemia (2020–2021), a curva reacelerou e fechou 2024 com alta de 4,9%. Na variação 2018–2024, Nordeste e Norte lideram os crescimentos (+41,4% e +31,0%), enquanto o Sudeste registra queda de 4,1%. Os dados, do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, acendem um alerta: o incremento dos desaparecidos pode encobrir execuções e desaparecimentos forçados — sobretudo onde há disputa territorial de grupos armados e alta letalidade policial. Em termos simples: uma parte da violência não aparece nos homicídios, porque os corpos não aparecem. Onde os números somem: o nó das “mortes a esclarecer” A análise dos desaparecimentos precisa necessariamente ser articulada à categoria de “mortes a esclarecer”, uma classificação provisória dos boletins policiais que reúne ocorrências tanto com quanto sem indícios de crime, podendo ser posteriormente reclassificadas como homicídio, suicídio ou acidente. O Anuário Brasileiro de Segurança aponta que, entre 2018 e 2022, o percentual de mortes de intenção indeterminada (registradas pelo Datasus) apresentou crescimento consistente, enquanto o indicador equivalente da segurança pública permaneceu mais estável, ainda que em níveis inferiores. Essa discrepância foi agravada por mudanças recentes na metodologia de alguns estados, que passaram a incluir as “mortes a esclarecer” dentro do total de homicídios, o que compromete a comparabilidade das séries históricas e dificulta a interpretação sobre a real dinâmica da violência. Em 2024, por exemplo, houve unidades da federação cuja taxa de mortes a esclarecer sem indício de crime superou a de homicídios dolosos, enquanto outros estados sequer reportaram a categoria. Tal cenário revela falhas graves de padronização, reforçando a urgência de uma governança de dados integrada e transparente, capaz de oferecer diagnósticos confiáveis para orientar políticas públicas. Baixada Fluminense: a face mais exposta de um problema nacional Na Baixada Fluminense, o desaparecimento de pessoas consolidou-se como uma espécie de “solução criminosa” para conflitos e como estratégia de blindagem de culpáveis, inclusive quando a violência envolve agentes estatais. Levantamento abrangendo o período 2016–2020 cruzou dados do Instituto de Segurança Pública (ISP/RJ) — relativos a desaparecidos, homicídios dolosos e mortes decorrentes de intervenção policial — com registros do Disque Denúncia e monitoramento de imprensa e redes sociais. O resultado permitiu comparar Baixada e capital e mapear zonas de ocultação, ao mesmo tempo em que fortaleceu uma agenda legislativa para tipificar o desaparecimento forçado no Código Penal, em consonância com a Convenção da ONU e a jurisprudência do Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Um retrato em números (2016–2020) Esse conjunto de dados reforça que a Baixada não apenas concentra casos graves e emblemáticos, mas também antecipa tendências nacionais, tornando-se um território-chave para compreender a dinâmica dos desaparecimentos no Brasil. A geografia da “desova”: rios como valas, fronteiras como logística Um exemplo nefasto é a região do Km 32 (Nova Iguaçu) aparece como nó logístico de descarte. Fronteira entre a Zona Oeste do Rio (Campo Grande, Santa Cruz) e a Baixada, cortada pela BR-465 e Estrada Madureira, a área é estruturada pela bacia Guandu – Guandu Mirim – Capenga – Campinho, historicamente citada como um dos maiores cemitérios clandestinos do estado. Um morador às margens do Rio Capenga relatou ter visto, supostamente, cerca de 500 corpos em oito anos — média de um por semana. O relato não é prova judicial, mas indica escala e prioridade investigativa, demandando resposta estatal integrada. O que dizem os dados — e o que falta dizer No cenário nacional, a aparente redução das Mortes Violentas Intencionais (MVI) precisa ser relativizada diante do crescimento dos registros de desaparecidos, o que exige cautela frente a interpretações excessivamente otimistas. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública apresenta séries históricas relacionando MVI e mortes a esclarecer (2011–2022), além de um painel específico sobre desaparecidos (2018–2022), evidenciando conexões e inconsistências. Também devemos destacar ainda as quebras de série decorrentes de mudanças nas regras de classificação em alguns estados, que passaram a incorporar as “mortes a esclarecer” no total de homicídios, comprometendo a comparabilidade temporal. Em 2024, a disparidade ficou evidente: a taxa de mortes a esclarecer sem indício de crime variou entre 0 e 27,5 por 100 mil habitantes entre as unidades da federação, com alguns estados sequer enviando dados. Esse quadro revela que a governança informacional continua sendo um dos pontos cegos mais críticos do poder público, dificultando diagnósticos precisos e políticas efetivas. Por que a Baixada é chave para entender o Brasil A Baixada Fluminense funciona como um espelho antecipado das dinâmicas nacionais de violência: a combinação de disputas armadas, letalidade policial elevada, avanço de milícias e um processo de urbanização marcado por desigualdades cria terrenos férteis para a ocultação de corpos. As denúncias encaminhadas ao Disque Denúncia evidenciam a forte concentração territorial de cemitérios clandestinos, encontros de cadáveres e registros de desaparecidos, enquanto os dados do Instituto de Segurança Pública confirmam a persistência de altos índices oficiais. Nesse cenário, as redes sociais cumprem papel central ao amplificar a memória … Continue lendo Desaparecidos: o drama invisível que corrói o Brasil e explode na Baixada Fluminense