A história que a mãe escreveu com coragem: a luta por justiça no caso Andrei Goulart

Compartilhe este post: Share on X (Twitter) Share on Facebook Share on Pinterest Share on LinkedIn Share on Email Share on WhatsAppEm 30 de novembro de 2016, a cidade de Porto Alegre amanheceu com uma cena silenciosa, perturbadora e dramática: o menino Andrei Ronaldo Goulart Gonçalves, de apenas 12 anos, foi encontrado morto dentro do apartamento da família, no bairro Cristal, zona sul da capital gaúcha. A princípio, o caso foi tratado pelas autoridades como um possível suicídio — uma hipótese que não despertou investigação imediata por homicídio. Ao longo dos anos, porém, essa versão oficial começaria a ruir, peça por peça, pelas insistências de uma mãe que recusou aceitar o silêncio da burocracia institucional. Este episódio marca não apenas uma tragédia pessoal, mas também uma emblemática luta contra a impunidade de crimes cometidos contra vulneráveis. Nove anos depois, em 27 de outubro de 2025, será movido o julgamento em tribunal do júri do tio acusado — uma data que simboliza a persistência da família, a resiliência do ativismo social e as barreiras que operam no sistema de Justiça quando se trata de crimes contra crianças. A trama dos fatos: da morte à investigação No dia 30 de novembro de 2016, Andrei foi encontrado com um ferimento de bala na cabeça dentro do apartamento onde morava com a mãe, seus irmãos e, eventualmente, o tio, Jeverson. A versão inicial das autoridades apontou para suicídio, e, por muitos meses, não houve abertura de inquérito por homicídio — uma hipótese que já suscitava estranhamento, dada a idade da vítima e a gravidade do ferimento. Durante esse período, diversas lacunas foram sendo reveladas: indícios de apagamento de arquivos no celular da criança, comportamentos atípicos manifestados por Andrei antes de dormir, e a constatação de que o menino havia permanecido sozinho com o tio nas últimas horas. Esses elementos começaram a alimentar a suspeita de que o caso não era suicídio, mas algo muito mais grave — abuso seguido de homicídio. A mobilização da mãe A figura central dessa reconstrução da verdade é Cátia Goulart, mãe de Andrei. Movida por dor e convicção, ela recusou o esquecimento. Organizava vigílias, cobrava transparência, mobilizava redes sociais, buscava entidades de direitos humanos e advogados que aceitassem enfrentar o monumental desafio de enfrentar o aparato institucional. Com o tempo, a pressão social e midiática chamou atenção para o caso, e impulsionou autoridades a revisitar o ocorrido. A narrativa do suicídio, que inicialmente prevalecia, foi sendo contestada publicamente. Reabertura das investigações Em 2020, sob nova ótica, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) reabriu o caso. A partir daí, foram coletados novos depoimentos, reanálises periciais e buscas por testemunhas que pudessem colaborar com uma linha investigativa diferente — aquela que apontava para abuso sexual e homicídio para ocultação. Um depoimento relevante foi o de uma mulher que afirmou ter sido molestada pelo mesmo acusado — aos 11 anos de idade — o que fortaleceu a tese da acusação de um padrão de conduta delituosa. Outro ponto sensível: logo após a morte de Andrei, o tio teria sugerido que guardaria as cuecas da vítima, comportamento que provocou indignação e serviu de sinal de alerta para investigadores sensíveis. A reconstituição da cena, segundo o MPRS, indicaria manipulação para simular suicídio — inclusive a localização do corpo e evidências da bala. A pronúncia e as bases jurídicas Em 16 de maio de 2023, o juiz Thomas Vinícius Schons, do 1º Juizado da 1ª Vara do Júri de Porto Alegre, reconheceu que havia indícios suficientes de autoria e materialidade para pronunciar Jeverson Olmiro Lopes Goulart. Ou seja: levou o caso ao Tribunal de Justiça, abrindo caminho para que a acusação e a defesa fossem debatidas diante de jurados populares. A pronúncia fixou as acusações seguintes: O julgamento em tribunal do júri — previsto para 27 de outubro de 2025, às 9h30, na 1ª Vara do Júri do Foro Central de Porto Alegre — passa a ser o momento decisivo em que essas teses concorrentes serão levadas à avaliação de cidadãos comuns. A Justiça já abriu o credenciamento para imprensa e prevê que a sessão será pública. As narrativas em choque: acusação x defesa A tese central é a de que Jeverson, em 29–30 de novembro de 2016, praticou estupro de vulnerável contra o sobrinho em sua própria casa, e, logo depois, para evitar responsabilização, executou Andrei com um tiro na cabeça enquanto ele dormia. A cena teria sido manipulada para aparentar suicídio, com posições do corpo e evidências falsificadas. A qualificação do homicídio recai sobre dois pontos: (a) ocultação de outro crime — o estupro — e (b) uso de meio que dificultou a defesa (o elemento surpresa, o acesso privilegiado ao menor). Ademais, por a vítima ter menos de 14 anos, a pena mínima já sofre acréscimos previstos no CP. A presença de outra alegada vítima de abuso pelo acusado também compõe o mosaico probatório: reforça o perfil delitivo e a plausibilidade de padrão criminoso. Os depoimentos, provas periciais e perícias contraditórias da versão suicida serão colocados sob lupa no julgamento. A defesa A defesa — até agora — nega as imputações. Investe nos princípios mais caros do processo penal: a presunção de inocência, a exigência de prova robusta, a possibilidade de dúvidas razoáveis e a crítica às fragilidades da investigação, lacunas periciais e possíveis contaminações na cadeia de custódia. Ela pode argumentar que muitos indícios são circunstanciais ou especulativos, que a hipótese de suicídio, embora trágica, não foi completamente elidida, e que não cabe à acusação fazer suposições que extrapolam o regime probatório permitido. No júri, caberá à acusação convencer os jurados — por maioria — de que não existe “dúvida razoável” de que o réu cometeu os crimes. A defesa buscará justamente semear incertezas, levantar hipóteses alternativas e desconstruir as peças interpretativas mais frágeis. O simbolismo e a dimensão social O caso Andrei Goulart ultrapassa as fronteiras de um processo penal: tornou-se símbolo de uma luta coletiva contra a impunidade em crimes sexuais envolvendo crianças e adolescentes, … Continue lendo A história que a mãe escreveu com coragem: a luta por justiça no caso Andrei Goulart